Os Real Estate são os vizinhos que todos queríamos ter

Oportunidades destas é coleccioná-las para depois distribuir relatos orgulhosos pelos que não estiveram lá. Daqui a uns anos, haverá quem diga “eu estive naquele concerto da ZDB”. Em caso de dúvidas dos porquês de tamanho entusiasmo, é ouvir “Days”, o novo disco dos Real Estate. Não falha: canções de saudades adolescentes para adultos (ou quase) com rotinas e calendários? A temática é tão certeira que chateia. A quem ouve isto dói-lhe tudo. E porque a auto-comiseração é como um cobertor para friorentos em pleno Inverno, há que dizê-lo: impecável.

Ver de que é feita uma banda quando está no seu momento quase-perfeito, é disso que se trata. E tudo porque esta gente resolveu dar a real importância ao projecto que tinham em mãos. Diz-nos Alex Bleeker em conversa àdistância: “Este novo álbum foi gravado de forma mais profissional que os anteriores, com um produtor. E trabalhámo-lo em estúdio de uma vez só, tudo seguido.” Afinal, nada como seguir as regras, Alex. Que história é essa de fazer dos Real Estate um projecto de logo-se-vê, para investir quando tudo o resto está em pausa. Isso acabou, para nosso júbilo. “Para mim, é este o projecto mais importante da minha actividade”, nas palavras executivas do músico que também é líder dos Alex Bleeker and the Freaks. “Para o Martin [Courtney, guitarras e vozes] também o é, definitivamente, e até o Matt [Mondanile, guitarras, o artista também por trás do nome Ducktails] equilibra bem as coisas, com tudo o que tem feito.”

Verdade seja dita, nem que não quisesse, esta rapaziada teria sempre que dar a volta às prioridades. Este trio – que se faz rodear de Jackson Pollis e Jonah Maure para cumprir agenda em palco – é feito de vizinhos. Alex Bleeker explica-nos o funcionamento da coisa: “Vivemos os três em Brooklyn. Melhor, na mesma rua. O Matt vive do outro lado da estrada, em frente à minha casa. E o Martin ao fundo da rua. É raro o dia em que não nos encontramos todos na casa de alguém.” E atenção, que isto é gente que não sabe viver separada, não o faz há décadas. Ainda em Nova Jérsia, lá estavam os petizes, a admirar o que os rodeava. E convenhamos, Nova Jérsia tem quase tudo. Teve Sopranos e deu-nos Jersey Shore; tem Nova Iorque à vista e, nas costas, toda a realidade americana que não costuma ficar na memória de quem a vê ao longe. E para sua própria graça não tem estereótipos musicais. Citando um nativo, o tal de apelido Bleeker: “Nova Jérsia não tem um tipo de cidade ou de bairro, não tem um habitante clássico. E também não tem uma música que lhe seja mais habitual. Os Feelies, o Bruce Springsteen, o Glen Danzig… e nós. É bom contribuir para este bolo.” Pois é.

E pronto. Qualquer possibilidade de história curiosa em volta dos Real Estate acaba aqui. Não há volta a dar. E tudo isso torna a música da banda ainda mais interessante. Porque não nascendo de relatos boémios, de exageros ou experiências urbanas meta-filosóficas, resta o quotidiano. “Este disco foi escrito ao longo dos últimos dois anos”, diz-nos Alex. Ou seja, um daqueles momentos em que o título do disco faz sentido, quando na verdade não precisa. Então é tudo magia, ilusionismo de compositores que não precisam de esforço para entrelaçar guitarras de olhos postos no chão, para adorarem os Smiths nas cidades americanas, para continuarem a idolatrar os Galaxie 500 ou os Luna como se estes nomes da cena 2011. Não. Alex Bleeker: “Sabes, este disco deu muito trabalho, teve que ser tudo mais estruturado, tudo com uma coesão que nunca antes tínhamos experimentado.” Que é como quem diz “e o método interessa?”. Palavras chave: disco e concerto. Esquecer o resto.

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