R. Stevie Moore. O maior eremita da pop desceu da montanha

(isto aconteceu antes do concerto do lendário recluso no MusicBox, em Lisboa, na terça-feira)

Antes de a sigla DIY (“do it yourself”) ter sido inventada, para dar alento – com estilo – aos que fazem tudo sozinhos, já R. Stevie Moore gravava música em casa sem pedir autorização a ninguém; antes de a Amazon e o iTunes revolucionarem a distribuição à distância, já o americano andava a distribuir as suas cassetes através de um clube de fãs de estrutura precária mas suficiente para criar uma lenda, e, antecipando o shuffle do iPod, já este maníaco mudava a categoria das canções que escrevia e gravava sem vergonha nenhuma. R. Stevie Moore transformou-se num dos nomes menos ortodoxos da música pop, o equivalente ao único dinossauro vivo na Terra, um bicho do mato que em 1986 cantou “I Like to Stay Home” e assim explicou a sua filosofia. Ironia das ironias: hoje actua ao vivo em Portugal.

Moore está em plena digressão mundial, a primeira de uma carreira iniciada no final da década de 60 do século passado. Porque não gosta de tocar ao vivo? Nada disso. Para nos dar explicações, o músico reserva algum do seu tempo para responder à nossa curiosidade, mas tudo à distância, confiando nas tecnologias digitais. Primeiro propõe uma conversa via Skype, o telefone-maravilha online, sem custos acrescentados. Mas porque também estas graças falham, vai de usar o pouco moderno e-mail. Voltando aos concertos, Moore explica-nos que gosta “mucho” da experiência de palco, ou “muto, como vocês dizem, não é?”. Sim, algo assim. Então qual a verdadeira razão de um atraso de mais de 40 anos numa demanda global? Nada mais fácil de explicar: “Nunca tinha tido, até aqui, o dinheiro ou a equipa para poder fazer algo assim. Mas há pouco tempo consegui que uma banda me caísse no colo, algo totalmente imprevisto. Isso e datas marcadas, com pessoas interessadas em mim e no meu trabalho.” Mas outros pormenores contribuíram para esta dificuldade em embarcar numa road trip tão ambiciosa. “Não acho que tenha sido mal entendido ao longo dos anos”, confessa. Ou seja, gravar mais de 400 cassetes e CD-R – o que dá um total de milhares de canções, mesmo – não tem nada de estranho, nem que isso implique uma fuga quase total às regras da indústria musical (salva-se um punhado de LP e CD editados pela via habitual). A atitude tem, isso sim, um outro resultado: “Sinto que fui ignorado, ultrapassado por quem escolheu os métodos normais.”

Há sempre a solução óbvia para contornar esta dificuldade, seguir o estilo de vida rock’n’roll tal como foi delineado pelos heróis que fizeram história. Discos, concertos, mais discos, mais concertos e muita promoção pelo meio. Está bem está: “Nunca. Não seria capaz de o fazer, mesmo que de facto tentasse, por muito que o quisesse.” Porque há demasiado “conforto” em trabalhar desta maneira. É “conveniente”, sobretudo quando o espectro estilístico veste o XXL: “Hoje ando a tocar como uma banda de hard rock dos anos 70, com referências dadas e spoken word pelo meio. E talvez umas quantas baladas, resultam sempre bem”, diz o omnívoro rock, que já foi das electrónicas experimentais ao pós-punk a puxar para a pista de dança.

Do público, que agora o vai conhecendo melhor, diz que “vai crescendo, em número e no apreço que mostra” pela música que ele faz. “Ao contrário do meu espaço em casa.” Espaço em casa?! “É cada vez mais difícil arrumar tantas cassetes.”

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