Diego Armés: Um cantor sentimental é isto e nada mais

Foto de Rodrigo Cabrita

Esta história começou com um pack guitarra eléctrica & amplificador: “Tudo a 30 contos, com saco, cabo e palheta, já não se faz disso.” Diego Armés tinha 15 anos, com aquela vontade de se desfazer em seis cordas que a adolescência obriga: “É por causa do romance que se compram guitarras, é o máximo da coolness. Isso e o cabelo comprido. Vivi nos anos 90, há coisas obrigatórias.” Por estes dias, o corte curto faz mais sucesso mas de resto tudo se mantém. Diego Armés edita “Canções Para Senhoras”, sonho de um pré-adulto que tenha super-heróis no rock’n’roll mas que aqui aconteceu sem querer: “Nada de enganos, estou bem de amores, mas posso escrever canções desgraçadas na mesma.”

Diego é o mesmo que dá voz e distorção às canções dos Feromona, banda para nervosismos e tensão alta da boa. Aqui é tudo mais controlado, são “canções nascidas fora da banda” que a editora Chifre achou por bem pôr em disco – “primeiro em EP, mas como isto das gravações gera sempre mais material…” Guitarra e voz a construir o esqueleto de todas as canções, mais os arranjos de piano, violoncelo e acordeão. Simples, pois então, mas fácil o tanas. Porque as gravações “arrastam-se” e o juntar pessoas “pela boa vontade” nem sempre é fácil, mais a mistura e a masterização e uma editora em início de actividade. Resultado: “Tenho evitado voltar a ouvir o disco. Quero ter uma surpresa quando o tiver outra vez nas mãos.”

Os demorados 12 meses de gestação de “Canções Para Senhoras” nada têm a ver com o que se escuta. O autor rouba-nos a melhor das descrições. Fala em “canções estreitas, magrinhas” e nós a concordar. E continua: “É um disco cobertor, vai sair na altura certa.” Noves fora (que é como quem diz “as complicações”) fica a simplicidade que fez nascer o álbum. Diego gravou o que tinha a gravar “com rapidez, tudo em formato caseiro”, para não ter de ser sempre o tipo da electricidade em palco e dos DJ sets de memórias angustiadas de 90. “Tenho um lado menos carregado, que vem das letras do Rui Reininho e do Jorge Palma do ‘Só’”, confessa. “E que deixou a dada altura os Nirvana e os Smashing Pumpkins em troca do lo-fi dos Sebadoh ou do Beck.”

Cabe muita vontade no horário deste Armés, mesmo que a dedicação de hoje aos discos dos outros seja menor: “Não estou muito actualizado. Quando passas dos 25, toda a música começa a ser a mais. Ando a fazer canções que as pessoas já ouviram em qualquer lado e não tenho intenção de fazer outra coisa.” A memória imediata guarda-a para novidades portuguesas, ou como o próprio diz, “costumo referir-me aos Strokes como ‘aquela banda nova’”.

Mas isto é apenas a coerência a funcionar. Diego Armés trocou Mafra por Lisboa para estudar filosofia, mas “era tudo muito mais sério que na secundária”; dedicou-se à música, como se nota, mas “com fragilidades técnicas e pouca disciplina”; e troca o clubbing desenfreado por tascas e jantares de “copos de vinho, cigarradas e epifanias no YouTube” sem pensar muito no assunto. Daí que cultive mais a amizade com o acidente e o inesperado do que com planos-poupança e seus derivados. As canções vêm do mesmo sítio, mesmo as românticas, que poderiam precisar de outro dramatismo: “São só canções, não têm de estar sempre tão próximas como no dia em que as escrevi. Ainda que este seja um universo tramado.” Explica porquê, Diego: “Para quem ouve, estamos a um passo do ‘este gajo canta coisas que me são próximas’ ou então do ‘este gajo é muito lamechas’.” Mas é a lógica que o salva desta dor de cabeça, quando diz “este disco faz-se de memórias imaginadas, como a namorada da escola secundária que nunca resolveste. E toda a gente teve uma”.

publicado no ‘i’
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