Os movimentos perpétuos de Carlos Paredes

Em 2004, Ben Chasny visitou Portugal na qualidade de profeta da modernidade, com histórias de gente comum cantadas à guitarra mas com uma adjectivação a puxar para o modernista. Não é exagero, é apenas respeito pela volta que o homem deu à tradição musical americana – roubando daqui e reinventado dali deu em pioneiro, facto. Teve a sorte de, entre concertos, descobrir a obra de Carlos Paredes, de a tomar como coisa sua (não é direito, é dever), de lhe dedicar um álbum – “School of The Flower”, editado em 2005 com a assinatura Six Organs of Admittance – e de avisar os responsáveis da editora com quem trabalha, a Drag City, de que as versões em LP de alguns dos álbuns de Paredes estavam há muito fora de circulação e que a sua recuperação era, mais que uma obrigação, um evidente privilégio. Pois que sejam entregues os agradecimentos à insistência de Ben Chasny: “Guitarra Portuguesa” (1967) e “Movimento Perpétuo” (1971) têm nova vida em vinil e isso merece-nos toda a atenção.

Primeira pergunta, em modo “curiosidade infantil” – porquê estes dois discos? Fred Somsen, português que faz parte da equipa da Drag City em Londres, responde: “Estes discos são, na nossa opinião, e também na de Chasny, os mais importantes e interessantes da carreira de Carlos Paredes. Estão disponíveis em CD e formato digital, mas a versão em LP não o estava desde a sua edição em 67 e 71. Em 1983 foram reeditados em LP, mas num formato duplo, num só invólucro.” Porque a obra é de enorme importância – falamos de Carlos Paredes, o maior nome da guitarra portuguesa, da sua tradição e, ao mesmo tempo, da sua recusa de limites e formatações – discos irrepetíveis pedem por alguns cuidados na hora de serem alvo de reedição. “Tentámos ser fiéis à edição original de 1967 e 1971, respectivamente”, explica Fred Somsen. “Assim, as capas são cópias exactas dos discos originais, incluindo os textos das contracapas em português e inglês, no caso de ‘Guitarra Portuguesa’, e em português no caso de ‘Movimento Perpétuo’. Neste último, incluímos no seu interior um pequeno folheto com a versão inglesa do tal texto.”

De novo em vinil e pela primeira vez no mercado mundial. Sem preconceitos face ao que separa uma música de tradição portuguesa de um público que não a conhece mas com a noção das distâncias. Diz-nos Fred Somsen que “Paredes é ainda relativamente pouco conhecido internacionalmente, talvez o seja por via das comunidades emigrantes, talvez também pela versão que o Kronos Quartet fez de ‘Verdes Anos’”. Ainda assim, nada que não seja contornável: “Acreditamos que uma edição destas pode conseguir chegar a outros públicos. A genial obra de Carlos Paredes merece ser conhecida e divulgada além-fronteiras.”

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