“Achtung Baby”: 1991, o ano da graça dos U2

Para chegar a 1991, os U2 andaram quilómetros. A banda teve que aguentar cortes de cabelo de gosto questionável enquanto reescrevia as regras dos hinos de estádio; tornaram-se nos mais improváveis e, ao mesmo tempo, mediáticos cantores de protesto social e político (deram ao tema açúcar e conforto, coisa rara) e renderam-se aos encantos da América. Só depois veio o tal 1991 e, por muitos fãs ou inimigos que a vida anterior da banda tenha gerado, o passado era reciclado na perfeição, à maneira vidro-velho-vira-novo. A data oficial da epifania dos U2? 19 de Novembro, dia da edição de “Achtung Baby”. Mas a celebração dos 20 anos é antecipada para hoje por força das leis do mercado. Está nas lojas a edição especial que assinala a data – e a verdade é que ele há coisas que vale a pena comemorar.

No final dos anos 80, os U2 eram miúdos mimados. Ao conquistarem o título de “maior banda do mundo” julgaram que podiam tudo sem castigo. Depois de “The Joshua Tree”, de 1987, o quarteto mandava na Europa e no mercado americano. Mas a digressão mundial que se seguiu deu-lhes mais ego que criatividade. No formato “quero-posso-e-mando-mesmo-muito”, exageraram a sua própria megalomania e acreditaram que o estatuto conquistaria qualquer coisa e qualquer público (uma falta de ímpeto registada na desventura que foi o disco/filme ao vivo “Rattle and Hum”). A melhor parte? O fecho para balanço que se seguiu.

Em 1990 (início das gravações), depois de meses sabáticos, havia uma Europa unificada e um estúdio vago em Berlim; havia club-culture e Madchester e o rock industrial como curiosidade boa; estavam por lá os génios de Daniel Lanois e Brian Eno, produtores Classe A; e a electrónica a fazer amizades com as guitarras, mais David Bowie de finais de 70 numa parede, Iggy Pop na outra. Tudo isto com a liberdade que os próprios instituíram: não à obrigação de fazer amor com todos os que ouviam os discos dos U2; basta de bandeiras revolucionárias – pelo menos das óbvias; e abaixo os concertos em que a figura real da banda era o que realmente importava. Com “Achtung Baby” aconteceu mesmo tudo isto, não é exagero. Isto e canções notáveis (de “Zoostation” a “One”), mais a digressão que fez da mania das grandezas uma coisa boa (Zoo TV Tour e a sua sequela europeia) e “Zooropa” (1993), um álbum tão bom (ou melhor, dependendo do dia em que é escutado) quanto o seu antecessor, o tal que foi de EP com experiências dançantes a viciante e vitaminado longa-duração.

Na ressaca de toda esta reinvenção ainda houve o projecto Passengers, com Brian Eno, e “Pop”, com um grupo alimentado a cinismo, sem revolucionar mas a ter a coragem de dizer que o descartável também pode ser bom. Mas depois os U2 transformaram-se numa banda de sofá com o comando na mão, a fazer zapping sobre as suas memórias e muita preguiça para tentar sintonizar qualquer outra frequência. Ainda assim, 20 anos depois, “Achtung Baby” e tudo o que o rodeou continua a desculpar esta maleita: criatividade assim não costuma repetir-se.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Música, U2. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s