Real Estate: ‘Days’

Em tempos não havia discos destes quando era importante, por isso o fim do Verão e o regresso às aulas resultavam numa enorme convulsão gástrica, no mais importante e desgostoso desafio do ano. Nos tempos em que na primeira segunda-feira com novo horário e livros por estrear chovia sempre, era preciso alguma coisa para facilitar a digestão do pequeno almoço e encarar os grupos de sete que se espalhavam pelos pavilhões logo ao primeiro dia. Aquilo sim, era ser cool, fazer parte de uma pequena máfia organizada quando íamos ainda nas aulas de apresentação. “Days” é o disco do Outono, estas canções estiveram à espera que o Verão acabasse, apesar de todos os atrasos, para se revelarem na sua plenitude. E é tudo o que desejávamos ter num walkman na altura, para termos pena de nós próprios e gostarmos disso. Hoje, ouvir os Real Estate nesta altura do ano, é um sorriso parvo quando a memória viaja até aos dias da crueldade juvenil e um enorme agradecimento pela existência de iPods e cartas de condução, que permitem um repeat constante de tudo isto, a comer quilómetros e a gostar dos avisos de nebulosidade e baixas pressões.

“Days” é a mais harmoniosa lista de acontecimentos mundanos dos últimos tempos. É um relato de ruas e carros e bicicletas e postes de electricidade, o encanto dos subúrbios e “olha aquelas árvores lá ao fundo”, a namorada de há três anos e “nada de escrever canções no Verão, que há muito que fazer”. São momentos que descendem do lado mais acústico dos R.E.M., do mais hipnótico dos Galaxie 500 e da preguiça aparente dos Luna. Canções de fogueira para semi-adultos, refrães de surf para quem tem medo de ondas e muita queda para o escaldão rápido, mesmo em Outubro. E o melhor de tudo: passam por Lisboa (ZDB) a 3 de Dezembro, a altura do ano perfeita para esta espécie.

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Uma resposta a Real Estate: ‘Days’

  1. Nuno Rebelo diz:

    Sem dúvida e o meu maior lamento é mesmo só agora, há coisa de um par de semanas, os ter conhecido e precisamente à custa do Cartaz da Zdb (que está com um cartaz poderoso, com destaque, meu, para o John Maus). Bem sei que eles por ai andam há algum tempo e até uma ex namorada minha me disse, só agora, (o Facebook e as suas coisas) que os havia visto em concerto o ano passado no Primavera Sound.

    Ouvir o tema Green Aisles, por exemplo, é ler o que aqui se escreve. E depois lamentar-me por agora não ter a quem dar um beijo e uma ternura por poder partilhar a singela e prosaica alegria de os ouvir.

    O álbum vou-o ouvindo aos poucos, como costumo fazer, mas diria que também detecto ali um toque de Stone Roses ou pelo menos Ian Brown no tema Municipality, por exemplo. Mas isso não interessa, a coisa, leia-se o álbum, é simplesmente óptima.

    Afinal nem todo o Imobiliário está em crise. Ainda bem.

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