The Woodentops: isto tinha de voltar a acontecer

Lá estavam eles, em meados de 80, a fazer as primeiras partes de gente gloriosa como os The Smiths ou Nick Cave, a esgalhar singles frenéticos, apetitosas iguarias de uma pop tão indie como alternativa, a convencer a Rough Trade e a editar “Giant”, enorme monumento à luminosidade que ninguém julgava poder nascer de uma cidade britânica, muito menos de Northhampton. Aconteceu tão depressa como acabou, porque as vontades eram muitas e o fio condutor curto, porque os negócios e as finanças assim ditaram. Hoje actuam no Teatro Municipal de Vila do Conde, concerto integrado numa digressão que marca o regresso aos palcos, e para breve aos discos.

Há quem vos descreva como “um dos segredos mais bem guardados dos anos 80”.
Bom, nunca pensei que tínhamos sido um segredo, até fizemos um barulho razoável na altura.
Sim, mas ficaram longe do sucesso que muitos previram quando editaram “Giant” [álbum de 1986].

O que aconteceu depois desse disco?
Agora olho para trás e não consigo imaginar como é possível estar mais cansado do que nós estávamos na altura. Todos os dias eram feitos de viagens ou de esperar para tocar ou gravar. E de muita escrita. Tocámos em todo o mundo e conseguimos o sucesso que queríamos. As nossas ambições eram mais musicais que financeiras e hoje ficamos felizes por saber que influenciámos algumas pessoas.

Foi a distância que vos separava de um sucesso maior que vos levou a terminar a banda?
Não, foi o colapso da Rough Trade [editora dos Wooden Tops] que nos parou. Não podíamos usar o nosso nome durante três anos, legalmente. Por isso decidimos ver o que raio poderíamos fazer da nossa vida durante esse período.

Pelo meio de tal processo, cometeram erros que vos comprometeram?
Não como músicos, mas a nível de negócios pode ser. Talvez não tenha sido nossa culpa, mas deixámos escapar algumas oportunidades. Ainda assim, se a fama de facto tivesse chegado até nós, talvez não estivéssemos todos vivos.

Como era a Inglaterra pop-rock de meados de 80. Era tudo o que se diz hoje, em termos de criatividade?
Era, totalmente. Estava tudo a acontecer, diferentes estilos e vontades. O negócio da música era mais saudável e as editoras estavam dispostas a assumir mais riscos. Por isso havia mais hipóteses de mostrar trabalho, tanto para a música alternativa como para a parte menos comercial dos desenvolvimentos áudio, dos estúdios, das electrónicas. Tudo isso ficou mais acessível e os novos movimentos ganharam com isso, como a club culture. Os jornais e as revistas foram atrás desse fenómeno.

E no meio de tudo isso, o que vos influenciava mais?
James Brown, Fela Kuti, Suicide, os discos da On-U Sound, Yello, Kraftwerk, Bad Seeds, Stooges, Miles Davis, Led Zeppelin, Black Sabbath, Prince… Ah essa pergunta é difícil e ingrata. Até porque depois surgiram coisas notáveis. Os Masters at Work, Carl Craig ou Jeff Mills, o gangue de Detroit. O movimento de break beat, do jungle ao dubstep, e a evolução da música sequenciada dos anos 90. Mas depois há a música acústica, de todos os géneros.

Isso não é música a mais?
Dito assim parece. Mas todos estes nomes foram acontecendo ao longo dos anos. E também foi por isto tudo que decidimos regressar. Bom, foi isso e algo mais concreto.

Muito bem, e isso foi o quê?
No final de 2005 recebi um CD com a gravação de um concerto nosso do qual mal me lembrava. Zeleste Barcelona 1988. O concerto era tão bom que pensei “alguém tem de continuar a fazer isto”. Enviei uma cópia aos restantes membros do grupo e toda a gente concordou em voltar aos palcos.

Mas também vai haver novo disco.
Sim. Foi completamento gravado ao vivo. Usámos uma série de microfones antigos para tentar captar um som clássico e as canções são muito “woodentops”. Alugámos uma casa junto ao mar para ensaiar as canções que depois gravámos em Londres, durante um nevão que nos obrigou a ficar no estúdio durante dias. Sem carro, muito menos avião. Porque tocámos e gravámos a toda a hora, tivemos muitas queixas por causa do ruído. Um vizinho chegou mesmo a atacar o nosso técnico. Mas tudo bem, faz parte.

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