Jonathan Wilson: o novo herói das modas do velho Oeste

Jonathan Wilson procurou o seu próprio nome no Google e a coisa não correu bem: “Há um tipo com o mesmo nome que eu. Já pesquisei, é um jornalista inglês ou algo assim, escreve sobre futebol. E isso não é assim tão interessante, não comparado com aquilo que faço.” Claro que não. Wilson é um caso real de clichés reunidos numa só pessoa, mas daqueles que a história da pop nos ensinou a entendermos como cool. E isso dá–lhe legitimidade para se achar interessante. Além de ter o look de cowboy do asfalto, de conduzir o muscle car de cavalagem generosa que vemos na foto, o guedelhudo em questão é músico, aprendeu a tocar guitarra entre fogueiras e garagens e vive em Laurel Canyon, que já foi morada de Jackson Browne, Joni Mitchell ou Arthur Lee.

Mas reconheçamos-lhe todo o mérito. Jonathan Wilson é como o descrevemos porque só sabe ser como os seus heróis, Bill Crosby, Neil Young ou Gary Higgins. E essa mania dá não só em típico herói da pradaria, resulta também em “Gentle Spirit”, disco nascido da retromania que assombra muito bom espírito criativo mas que, por vezes, gera momentos de assombro. Este disco é um deles, não há volta a dar.

“Tenho recebido muitos comentários que dizem que isto que faço é música do passado. É uma perspectiva, nada contra, mas eu não estou a tentar soar a velho.” Jonathan gagueja, acende um cigarro e continua a justificar-se: “Muitos procuram só quem anda a reinventar as funções dos utensílios de cozinha, os inventores de instrumentos como um abre-latas automático, alimentado a energia solar. Pois eu tenho isto a dizer: há quem cante seguindo a mesma tradição há milénios e ninguém critica. Aliás, dizem que é cultura, ou inventam categorias distintas para as lojas de discos. Depois vêm falar em repetição do que se fazia há umas décadas. Deixa-me que te diga que isso não tem qualquer sentido.”

Tanta insegurança que se explica num parágrafo. Há uns anos, Jonathan gravou um disco mas recusou-se a fazer qualquer tipo de promoção. Pouco antes da edição oficial, manda suspender tudo, num ataque de prima donna. “Não sei, algo não estava bem, não era a altura certa.” O que mudou entretanto? “Os lugares comuns, as pessoas crescem e as coisas mudam. Tenho 36 anos e já não faço tanta merda como fazia, coisas que me lixavam a percepção da realidade. Um dia edito definitivamente todas aquelas canções, com extras e um DVD.”

Por enquanto passeia-se entre palcos americanos e europeus com as canções de “Gentle Spirit”, a história do folk rock de acordo com o seu ponto de vista, que é como quem diz temperando tudo com uma boa dose de psicadelismo via Quicksilver Messenger Service e memórias de uma Costa Oeste de 60 e 70. Não viveu tal experiência, mas desde quando é que isso impediu fosse o que fosse? “Já viste aquela malta que se veste de hippie? Achas que alguma vez estiveram em São Francisco? Aposto que a maioria nunca o fez.”

A Jonathan Wilson tudo pertence. É um garimpeiro sem vergonha, pouco dado à natureza das coisas, mais aos seus efeitos, às suas consequências. Iniciou-se nas canções na sua Carolina do Norte natal. “Tinha uma banda com uns amigos. Um dia fomos tocar num bar desinteressante de Beverly Hills, aquilo para nós era o paraíso, a melhor coisa do mundo.” O homem caiu em si, percebeu que em botecos daquela estirpe não ia encontrar futuro. Mas descobriu na Califórnia tudo o que queria: “Esta é a última estação do comboio, não é possível ir mais longe neste país e as pessoas têm vindo para aqui desde sempre, com um espírito escapista, como exploradores do desconhecido.”

Fez-se produtor e acolheu no seu estúdio gente como Erykah Badu, Elvis Costello ou os Fleet Foxes. Perfeccionista nos detalhes técnicos, não quer saber de regras nem de método para escrever canções. “Demorei tempo de mais a gravar este álbum”, confessa. “E nunca pensei que isso pudesse acontecer. Tenho muito hábito de estúdio e sei o que posso e não posso fazer. Se calhar tenho um bocado a mania.” Tem, mas “Gentle Spirit” perdoa-lhe as maleitas. “Calma”, diz-nos. “Espera pelo difícil segundo álbum.”

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