Os truques e os malabarismos no circo de Rita Braga

Rita Braga vem de uma série de concertos entre palcos divididos por Espanha, França e Alemanha; antes tinha feito desfilar as suas canções pelos EUA, numa estadia que se prolongou por três meses, entre diferentes destinos; e pelo meio aproveitou para rodar quatro telediscos para outros tantos temas. No mundo das gravações, contava até há pouco tempo com três EPs, coisa artesanal, sem distribuição oficial a não ser na banca que acompanha o final de cada actuação. E ainda assim, apesar de todo este exercício ser feito em modo doméstico, Rita Braga recebe convites e procura, decidida, a autopromoção. Se esta equipa solitária vence, para quê mexer, para quê editar um álbum?

Há aquele aspecto da divulgação que só funciona de facto quando um artista assina um conjunto de mais de meia dúzia de temas. E o fim da inocência artística – álbum na mão, maioridade assegurada – também pode convencer. Mas nenhum destes argumentos é aqui o decisivo. Rita Braga: “Adoro discos, sempre descobri música, a minha música, através dos álbuns dos outros ou daqueles que fui coleccionando.” Os cultos são tramados e, por vezes, trazem consigo obrigações. Nada a fazer, aceitar que a maleita é crónica e ceder aos seus engodos. No caso desta artista sem morada e ainda menos vontade de a fixar, o resultado é “Cherries That Went to the Police”, uma colecção de canções de autores distintos, tempos e lugares, de Hank Williams a Badalamenti com David Lynch. Pelo meio, instrumentais e refrães em Sérvio. Canções bem bebidas, num burlesco que não se fica só pelo curioso.

Manda o bom tom que, nesta altura, se façam as apresentações. Rita Braga é de Lisboa, “sempre fui”, diz-nos, “ainda que, depois de uma temporada em São Francisco, esteja inclinada a voltar para a Califórnia”. Das influências maternas agradece “as brasileiradas e o jazz”, do irmão mais velho, típico fora-da-lei com legitimidade, outros condimentos menos apurados, mais voláteis, como os Nirvana. Fim do liceu, início das coisas académicas e as cordas afinam: “Comecei por fazer canções à guitarra ou com o ukulele, aquela coisa de quarto, sem ninguém e para ninguém.” Na associação Bomba Suicida deixaram-na usar liberdade em palco. “Nos Sunday Shows fazia um número musical muito informal, mas que também tinha uma componente teatral pelo meio. Foi óptimo para experimentar, para perceber o que era e como era ser o centro de uma actuação.” Consequências de perder toda a vergonha sobre momentos pessoais vividos em público: Rita criou uma agenda, ora atirando o barro à parede, ora aceitando convites.

Na altura, quem a viu e ouviu teve a mesma surpresa de quem escuta “Cherries That Went to the Police”. Rita Braga é uma recolectora, uma ouvinte atenta e uma invejosa saudável – se é bom, mesmo que seja de um outro alguém, até pode ser dela. E porque não? Música popular, não é o que dizem? Então venha ela. Dos anos 20 (o tal do jazz) a Tom Waits (as descobertas inevitáveis), do folclore de leste (Rita viveu seis meses na Polónia) a Bollywood (interessa mesmo saber porquê?). Importa juntar e carimbar com a marca da casa. “Se tivesse de arrumar o meu disco numa loja? Talvez escolhesse a prateleira da música portuguesa. Ou da alternativa.” Respostas politicamente correctas, que não explicam nada. Mas esta ausência de código genético óbvio é uma mutação de recomendável saúde, não mata nem mói. Rita Braga sabe disso. Não vê a sua criatividade em lado B, como graça que só assiste aos destemidos, mas está confortável e isso basta-lhe: “Não sei falar todas as línguas que canto [russo e grego entre elas] e talvez estas não sejam as mais habituais das referências para quem escreve canções em plena juventude urbana. Mas, ao mesmo tempo, parece-me óbvio de mais que é este o caminho. O que fazer?”

Em podendo, é continuar. Rita Braga tem feito pesquisas, o seu método de eleição, mas diz que “estão para vir originais, o piano é, por estes dias, um grande amigo”. E, nos concertos ao vivo, fiquemos atentos. Esta cantora, intérprete e compositora também se faz de artes visuais e o palco, ainda que a receba quase sempre sozinha, serve-lhe de tela para muitos e recomendáveis desvarios. Vai dizendo que, como em quase todas as suas outras coisas, as músicas e respectivas causas&consequências surgem “quase sempre por acidente”. Mas tanto acidente junto parece-nos pouco habitual. Merece, e bem, que paremos o trânsito para ver com cuidado o que se passa.

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