The Rapture: Punk, bolas de espelhos e anos sabáticos

A capa do novo álbum dos Rapture tem como protagonista um praticante de long board, modalidade estival, coisa de Verão e de coolness bronzeada. Como assim? Os Rapture, o tal quarteto (agora trio) de Nova Iorque que em 2002 pôs o punk a dançar como há muito não se via, que deu licença ao disco para entrar nas caves de Nova Iorque onde o rock deslavado ia fermentando, virou-se para o escapismo, já consegue viver fora da cidade e procura destinos de chinelos nos pés e outra atitudes hereges que tais. Será mesmo? “Durante anos, li e ouvi músicos em entrevistas que diziam coisas como ”vamos fazer sempre o que gostamos” e ”vamos ser verdadeiros para com o nosso trabalho”. Sempre achei que eram apenas frases fáceis de guardar para uma ocasião de diálogo fraco. Agora dou por mim a dizer o mesmo.” As aspas são de Vito Roccoforte, baterista dos Rapture, que faz assim a introdução à verdadeira resposta: “Podes inventar um novo género quando escreveres sobre o nosso disco, na boa.”

Segunda fase: ouvir as canções enquanto olhamos para a capa do disco. A conclusão óbvia é que esta música vai bem com qualquer foto e não tem ponta de esquisitice. Fosse uma boca à mesa do jantar e este álbum ia tanto ao peixe cozido como aos verdes. Ainda assim, e apesar do palato voluntarioso e adaptável a todos os temperos, 2011 mostra esta banda como sempre foi. Vito chega-se à frente nas explicações: “A nossa mania, a nossa relação crónica, é com a música de dança. E este é um disco para fazer dançar.” Certo, nem mais, mas há por aqui algo que não havia noutros tempos, caro Roccoforte. Há quem lhe chame “novos caminhos”, outros preferem algo como “o cansaço às vezes motiva mudanças”. Preferimos ouvir a explicação esclarecida. “Bom, este trio tem dois elementos que são pessoas muito responsáveis, pais de família, com horários e outras obrigações. Isso quer dizer menos tempo para desperdiçar em brincadeiras de estúdio, mais objectividade na hora de transformar vontades em música.” Traduzindo a equação em resultados rock”n”roll, dá isto: “Nunca iríamos fazer mais um “House of Jealous Lovers” [o hino hedonista que serviu de epifania eléctrica em 2002 e daí para a frente]. A canção é óptima e adoramos tocá-la. Mas se já existe uma, para quê fazer outra? Há quem escreva coisas como “os Rapture estão mais maduros”. Bom, isso é discutível, mas se evitar a repetição é crescer e ser sério, então tudo bem.”

Nestes tempos de “In The Grace of Your Love” há menos gritos de farra nocturna e mais tempo para escolher sons e ajeitar produções. Há mais voltas em cada tema e menos pressa de chegar ao cume do momento. Porque, na essência, há outro querer que rodeia os detalhes e a experiência de fazer parte de uma banda. Para os viciados no roll que o rock tem, basta repetir o processo que os Rapture protagonizaram nos últimos cinco anos para perceber de onde vem esta coisa de compor e gravar a inquietude com a calma deste mundo e do outro. “O Luke [Jenner, vocalista e guitarrista] teve que tirar um tempo para resolver-se consigo próprio e os seus problemas”, recorda Vito. “E pelo meio ficámos sem saber o que fazer. O Matt [Safer, ex-baixista] decidiu sair durante esse processo mas era claro que tudo iria voltar a acontecer. O tempo certo chegou no ano passado.”

Uma história longa no calendário e curta no argumento. Mas se todas as crises da pop dessem em novelas como esta, terminariam sempre em capítulos finais de boa memória, para gravar e rever uma e outra vez, até estragar a fita (houvesse fita e era certinho direitinho). A epopeia foi de tal forma esclarecedora que levou os Rapture a regressar à DFA James Murphy e Tim Goldsworthy, depois de “Pieces of The People We Love”, vindo ao mundo em ambiente de multinacionais. “O segredo não é lançar discos por uma editora pequena. Há editoras grandes que funcionam bem. A solução é escolher o que melhor nos serve os desejos”. Vito, um aviso, estamos a entrar mais uma vez no campo das frases feitas: “É, e quando achamos que elas têm significado isso quer dizer que há um problema, não é?” Talvez não – ouvindo o disco, arriscamos dizer que está tudo bem.

publicado no ‘i’

 

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