Jay-Z & Kanye West, ‘Watch The Throne’: par de reis

Isto um dia vai acabar. Só pode. Isto de ser egocêntrico e dizê-lo de pulmão cheio com a mania toda em rimas estudadas ao limite não é coisa que dure para sempre. Hip hop feito de megalomania não tem futuro longo, está condenada à implosão. Ou então é tudo teoria e esta dupla anda a brincar com a preguiça que temos em aceitar a ausência de regras na evolução da pop. “Watch The Throne” é o disco mais óbvio e literal do ano: olhem para o trono, pá, olhem agora que isto nunca se sabe quem o ocupa amanhã. Hoje? Jay Z e Kanye West, nada a fazer quanto a isso. Em disco, juntos, são previsíveis até ao tutano – já sabíamos que seria tudo caro, grandioso, com convidados luxuosos e capas desenhadas pela Givenchy. Mas escuta-se o esforço criativo que, dizem os relatórios oficiais, não custou nada a nenhum dos dois, e isto é bem mais que moda e nariz empinado.

Já o sabíamos? Claro que sim. Com a vida discográfica de cada uma destas estrelas e com actuações como a de Kanye West no passado fim-de-semana, a Sudoeste, estava tudo mais que esclarecido. Mas é-nos permitido desconfiar quando o produto vem a dobrar e é de longa duração, longe de colaborações pontuais ou em regime perpendicular (artista-produtor e fenómenos de naturezas afins). Há mais margem para não haver margens e isso é perigoso. Descansamos ao ouvir samples caros (de Otis Redding a Nina Simone) manipulados como nunca; rapping perfeito, sobre beats ou sintetizadores, venha de lá o que vier; amigos e conhecidos – ou mais que isso – que vestem as medidas exigidas na perfeição (Frank Ocean, do colectivo Odd Future, e Beyoncé no topo da hierarquia); palavras escolhidas com tal cuidado que nos damos ao trabalho de querer perceber tudo o que se diz. Ainda assim, parece que tudo isto é uma sequela de “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” – e do lado de cá não há espaço para tanto gigantismo. Os mil e um caminhos que cada tema toma já não soam a arrojo como poderiam e a nossa generosidade para com os seus autores dá-lhes menos tolerância. É, isto um dia vai acabar, só pode.

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