SBSR dia 1. Das romarias e seus santos

Um festival é uma romaria, corre-corre, devagar para chegar, depressa para trocar de palco. Até que chegam os Arctic Monkeys e basta – que ninguém se mexa agora. Uma noite inteira para eles, no recreio não cabe mais ninguém. Não que o primeiro dia de Super Bock Super Rock tenha só os de Sheffield para deixar na história mas foram eles o nome maior: assim estava escrito no bilhete mas nem sempre o cartaz se faz óbvio em palco.

Da tal história que se falava acima. Houve Sean Riley a lutar contra a electricidade que lhes dava trabalho extra, mas a funcionar como óptimo momento de boas vindas – escutava-se um oeste selvagem de genética portuguesa e o cenário dizia “sim, isto fica-me bem”.

Como os Glockenwise, banda de garagem para Verão eterno. “São tão novos” diziam os que não tiravam os olhos do palco. Eram putos os que saltavam e davam lições de distorção e diziam que Barcelos era a terra do rock’n’roll. O palco era secundário mas a poeira foi a que se viu. Copos ao alto. Acaba mas quase todos vão querer mais: “Onde e quando é que isto volta a acontecer”.

Que ninguém se mexa. Nada a fazer. Há oferta de sorriso largo e procura com toda a disponibilidade do mundo. Os Walkmen coleccionam o início da multidão (que o há de ser de corpo inteiro em breve) mas a tarde não lhes dá tanto como a noite, nada a fazer quanto a isso. E os The Kooks continuam nesse papel de congregador – que os que lá faltam, frente ao palco principal, estão com os Tame Impala, porque o disco “Innerspeaker” assim obriga, porque a curiosidade tem coisas tramadas. É psicadélico, é pop, é quente, tem o cenário árvores-às-cores-será-que-estão-a-arder do palco secundário, que lhes fica tão bem. Não têm tudo o que precisavam – que os magotes que os observam estivessem todos na mesma sintonia – mas não sabem como não fazer tudo bem feito. Pouco movimento, que o trabalho requer perícia. E é por isso que temos que os ver como se estivessem na nossa sala de estar (quando?).

Vem El Guincho e nada disto continua a ser verdade. A festa é quando o trio vindo das coisas de Espanha quiser. Aqui e agora – que assim seja. Quem ali está sabe ao que vai, preparar saltarilhos e outras manobras das coisas da farra. Os outros sabem o que esperar, que El Guincho é nome de boa fama. Está tudo bem amigos, está tudo bem entre eles. E a música tanto dá para falar sobre tudo ao mesmo tempo ou para dançar com mais nada pela frente.

Isto aqui é uma orquestra. Zach Condon tem o mundo à sua frente. Estão lá todos, é o que é. Porque o adoram? Porque Beirut os seduz como mais nada? Porque não? Que assim seja. Podia o som estar mais alto, podia a melancolia das canções – as melhores, num alinhamento inteligente e certeiro – chegar perto de nós como as conhecemos, desarmantes. Não o faz porque nunca conseguiria, é tudo muito grande e com muita gente. Mas caramba, canta-se de dança-se (como se pode, claro) e Condon recebe um abraço do tamanho de um festival, que é coisa bonita de se ver.

Lykke Li debate-se com o dilema de roubar gente ao início dos Arctic Monkeys. Atira os sucessos (à sua escala) que pode. Recolhe coros e paixão sobre alguns refrães. E fá-lo a bom tempo, antes de muitos dizerem “está na hora”. Para os Arctic Monkeys não falta nada, nada, nada, têm lá tudo, estão lá todos. E a retribuição vem na forma do melhor rock’n’roll de jeans e cabedal. Punk de uma Inglaterra industrial, a piscar o olho a Carnaby Street e a transformar-se em pop malvada – que bem que ela sabe. Há corre-corre entre os bares mas vai tudo bem. Há mensagens entre amigos “mas afinal onde está” mas está tudo bem.  Então resta apenas gozar das canções, as melhores dos Arctic Monkeys, que vieram todas ali parar. A quarta visita a Portugal e nada daquilo cansa, nada se faz repetido, que é bom, é bom é. Mesmo que alguns consigam fazer de um festival algo de claro e sereno raciocínio: “Se calhar vamos andando, que isto mete-se o trânsito no fim e é uma chatice.”

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