‘Olá, nós somos os Tame Impala e isto é rock psicadélico’

Imaginemos que esta frase surge numa página de um jornal: “Se só puder ver um concerto no festival Super Bock Super Rock, então escolha os Tame Impala” – só pode ser coisa de piada. Voltemos às páginas anteriores por cinco segundos. Há por ali nomes como Arctic Monkeys, Portishead, Arcade Fire e The Strokes. Têm canções perfeitas, ditam a moda do que que se escuta e do que se usa, são a banda sonora de uma mão cheia de vidas a cada esquina. Então, porquê escolher os Tame Impala? Dizemos nós que é uma rara oportunidade de testemunhar as dádivas do psicadelismo, graça maior que teima em não ter prazo de validade. Kevin Parker, a voz e a atitude technicolor destes australianos, ajuda-nos nesta invocação missionária: “Somos como os Pink Floyd foram entre os 60s e os 70s. Vá, talvez seja um exagero. Mas podíamos ser, mesmo.”

Um pouco de bom senso. A todos os que vão estar na Herdade do Cabeço da Flauta: perder a oportunidade de estar na refeição principal de cada um dos dias deste menu bem apurado pode dar em má digestão nervosa. Até o artista o diz: “Vamos tocar com os Strokes e os Portishead, não é?” Bom, Kevin, não é bem assim, o cartaz é o mesmo, mas os concertos acontecem em palcos e dias diferentes. “No mesmo festival. Uau. Isso para mim já é qualquer coisa.” Mas Kevin, os Tame Impala são hoje uma das melhores coisas do rock”n”roll, editaram no ano passado um álbum (“Innerspeaker”) que é um precioso conjunto de canções mergulhadas em ácido. Que é isso de humildades em tempos de estrelato pop? “Escuta, nunca vamos ser famosos, heróis. Nunca. Não temos vergonha de chegar ao palco e dizer ”olá, nós somos os Tame Impala e isto é rock psicadélico”. Mas de todas as bandas que alguma vez fizeram canções psicadélicas, ou acabaram precocemente, ou ficaram famosos porque mudaram de estilo ou já eram famosos antes de escreverem canções com cores a mais.”

A história é uma coisa tramada e dá-te razão, Kevin. Mas as vontades dos Tame Impala têm mais do que referências a grupos dos anos 60, fogem e bem do estereótipo “músico+LSD=sabe deus”. E por estes dias o fenómeno da popularidade é algo bem diferente, que depende mais da quantidade de links no Facebook do que de discos vendidos. E nesse campeonato, caros Tame Impala, o vosso é um nome bem cotado: “Sim, mas isso é porque nunca nos viste ao vivo. Vais esquecer o Facebook.” Kevin Parker, músico de pouca idade mas muita lenda da pop decorada, que canta como (pedimos desculpa pelo sacrilégio) um John Lennon novato sempre no meio do nevoeiro e pouco desperto para a realidade. Ao mesmo tempo, Kevin Parker, génio do marketing agressivo, que nos faz confissões como “não foi surpresa que dessem nota máxima ao nosso álbum” ou “isto do rock australiano é algo de muito especial, difícil de imitar”.

Sobre o concerto, outros detalhes com origem na mesma fonte: “Tentamos sempre que quem nos vê e ouve não se distraia, não fuja do sentido da música. É como estar perto do centro de um furacão, mas dos bons.” Ao vivo há quase tudo o que se ouve em disco – isto é gente que se esforça muito com pouco, o resultado é música “complicada de se fazer, depende do dia e do humor, mas quase perfeita na hora de a deixar tomar o controlo”. Juntam-se cores e luzes e tudo o que mais houver que possa ajudar a dar a volta aos sentidos e ao seu controlo. Kevin explica-nos que nem sempre foi assim: “Tempos houve em que vivia mais preocupado com os Nirvana e os Soundgarden. Até com a praia”. Mas o rock psicadélico tem um elemento que faz a diferença: “A capacidade de se reinventar em tempo real, de assumir formas inesperadas, de surpreender os próprios músicos, sem nunca sair do tom”. Mas não é isso descontrolo? “Não, é impressão tua.”

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