Seasick Steve, ‘You Can’t Teach An Old Dog New Tricks’: homem rude do campo

Steven Gene Wold veio a Portugal (ao Optimus Alive) ao mesmo tempo que o seu mais recente disco chegou às lojas. Esperar que a rodela seja um espelho do palco é um exagero que mais vale pôr de parte antes de ouvir as canções no sofá-carro-iPod (riscar, obviamente, o que não interessa ou assumir todos como possíveis pontos de escuta). Mas mesmo que a sorte de conhecer as canções surja depois da epifania que é ver o homem ao vivo, não há desilusões – ainda que se perca parte da rudeza que transformou este vagabundo num bluesman danado para cantar boas notícias e encantar desgraças.

Mas para o ser, na totalidade, teve de mudar de nome, como qualquer trovador dos infernos agarrado à guitarra. Seasick Steve é a marca do nómada, do errante que ama tonturas – menos as dos navios, mais as que vêm engarrafadas. Com nova assinatura, Steve já poderia cantar sobre pais desavindos, violência doméstica e uma infância perdida; uma autonomia prematura, longe de casa e a música como eterna companhia, ao melhor jeito do sonho americano virado ao contrário. Tudo isto depois de se ter cruzado com gente como Janis Joplin ou Kurt Cobain, de ter sido produtor de indigentes como os Modest Mouse e de se ter dedicado à construção de guitarras artesanais só com uma corda e de banjos de ferro-velho. Para completar o currículo de figurão rock’n’roll: só editou o primeiro álbum a solo, “Dog House Music”, em 2006, depois dos sessenta.

“You Can’t Teach an Old Dog New Tricks” chega depois da curiosidade se ter esfumado e de termos ouvidos postos apenas na obra e menos no artista. Sorte a nossa (e a de Steve) que os dois vão sempre de mãos dadas. Não há mais história para contar do que a que Steve já cantou, apenas há que recordar com apreço – ou quando o velho vira novo. E a música já não é feita por um homem amargurado, sozinho à guitarra, com os blues de John Lee Hooker ou Howlin’ Wolf e um pé a marcar o tempo. Steve ainda tem a lata de  um one-man-band, mas também a paixão pela country negra de Johnny Cash e a dinâmica de uns mais recentes Black Keys, graças à bateria endiabrada de Dan Magnusson. Perdeu-se parte da surpresa e da composição abrasiva com que deixou muitos a quererem saber “de onde vem este rude homem do campo”. Mas a verdade é que esta composição mais domesticada também vem de corte aprumado.

publicado no ‘i’
Anúncios
Esta entrada foi publicada em Música, Seasick Steve. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s