Optimus Alive: dia 2

Festivalada com todos. Com milhares de fãs, de música e das coisas do Verão, diz que 40 mil no momento de maior unanimidade frente ao palco principal; com o estamos-neste-palco-bem-podíamos-estar-no-outro; com telemóveis como salvação; e música, em modo grossista, com episódios que não vão pedir por espaço generoso na memória e outros que será difícil repetir.

Do primeiro grupo é melhor exemplo o concerto que encabeçava o cartaz de ontem, os Foo Fighters, que em tempos fizeram rebuçados pop com distorção criminosa mas que agora escrevem canções para pais de família com guitarras e grandes amplificadores na garagem. Ainda que mais ninguém o faça como eles, atirar um concerto de 2h30 num festival, para gente que já fez quilómetros com as pernas, um dos braços e os ouvidos, é coisa que se quer dinâmica, surpreendente, desafiante. Teve algo da primeira destas três palavras, graças ao actor que há em Dave Grohl, mas pouco ou nada das outras duas. Escutaram-se escassos regressos aos dois primeiros discos da banda, os que foram feitos ainda com tiques de adolescência (bom ingrediente para a música em questão), e muitas referências ao que de menos inspirado o grupo americano tem.

Valha-nos a febre de quem não cura crises nervosas e as aproveita para ser inesperado e gratificante – falamos de gente no palco e a gratificação é, do lado de quem vê, qualquer coisa a preservar. Daí que tenham ficado no departamento “concertos que temos em grande estima e vamos utilizar no futuro para quando quisermos ter a mania em frente aos amigos e outros que tais” Seasick Steve e Primal Scream. Razões comuns: esperar muito de ambos e ficar deslumbrado com o resultado final dos dois.

Dos Primal Scream e suas viagens psicadélicas: porque é que não pode toda a pop ser assim? Colorida até mais não, a esticar a corda da sanidade mental até suspender gente hipnotizada por um fio. Bobby Gillespie, o quase-baterista guru de uma nova dimensão ácida e vocalista rock’n’roll (ou seja, herói, vilão e tudo pelo meio), pode fazer o que quiser do seu público, todo o público, é tudo dele. Ainda que esteja longe de todos nós, que veja o que mais ninguém vê. Caramba, é essa disfunção que torna a música dos Primal Scream – e “Screamadelica”, em particular, o álbum cujo 20.º aniversário foi celebrado no Optimus Alive – algo ímpar. É esse bem-estar constante, vindo de um mal estar desconhecido, que Gillespie tenta revelar em jeito evangélico a quem o escuta. E pobre de quem não acompanhou o ritual, xamânica experiência que cresceu até envolver tudo, um big bang efémero, dançante e suado, de “Movin’ On Up” a “Country Girl”. Raios.

De Seasick Steve e sua esquizofrenia: um bluesman branco, um vagabundo com a experiência toda das estradas americanas na ponta dos dedos e na voz arranhada. Steve Gene Wold, 70 anos e contos de terror transformados em guitarras com apenas três cordas, instrumentos feitos em casa, banjos electrificados e um ritmo corporal que não é normal. Não se viu virtuosismo, não se escutou um intérprete maniento nos seus tiques de guitar hero. Apenas um desgraçado que encontrou nos blues (e na country e na folk adaptada à sua maneira) a melhor das redenções. Cantar para gerar o caos, tocar para fazer motins, apenas na companhia de um baterista de quem não ficámos a conhecer muito mas que, juramos, tem o mesmo nervo na venta. Vai daí, nada com terminar tudo com guitarras pelo ar e bateria em toda a parte. Ah, a graça do rock’n’roll.

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Uma resposta a Optimus Alive: dia 2

  1. Mariana Dias diz:

    A propósito do concerto dos Foo Fighters, chega a ser absurda a forma como tenta, a todo o custo, desvalorizar a banda, e o facto de, efectivamente, terem dado um grande concerto – provavelmente o melhor do Optimus Alive. Surpreende-me que evidencie de forma tão clara esse preconceito em relação à música rock de origem pós punk, às grandes bandas que acumulam prémios e – imagine-se a ousadia! -ainda se tornam “populares” e são aclamados pela crítica. Se dúvidas houvesse, bastaria recordar a carreira dos Foo Fighters e a do seu líder Dave Grohl, para perceber que não estamos perante um fenómeno menor no panorama musical das últimas décadas. Goste-se muito, pouco ou nada, a verdade é que estes senhores merecem algum crédito pela coerência, segurança e maturidade que tem caracterizado a(s) sua(s) carreira(s). Dizer que se trata de música em modo grossista, que o concerto foi pouco surpreendente, pouco desafiante e que, aqui e ali, houve falta de inspiração, é, no mínimo, muito pouco honesto. E está longe, muito longe da verdade.
    A título de curiosidade, gostaria de sublinhar que sou fã dos Foo Fighters, facto que nunca me impediu de gostar ou reconhecer qualidade noutros estilos/géneros musicais. Assisti, na íntegra, ao concerto dos Primal Scream e ao dos Fleet Foxes (que adoro). Reconheço que foram dois dos melhores momentos do festival, mas, ao contrário do Tiago, no meu caso “o preconceito mora ao lado”.
    Cumprimentos,
    MD

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