Claro que Will Oldham já foi actor. Na verdade, o homem nunca deixou de representar. Poucos saberão quem ele é, quando é que os tiques de sobrolho são sentidos e não ensaiados, quando é que a ironia é verdadeira e a lágrima não é estudada ao espelho. Na voz traz todas estas manhas. Na voz e nas guitarras que nascem no cimo de cavalos (imaginários ou não, isso lá interessa), desterrado entre desertos e montanhas, à deriva ou apenas numa longa viagem de destino incerto. Mas no meio desta trama existe algo que nunca se ouve como engodo ou ficção: Will Oldham canta histórias verdadeiras. Isto é ficção o catano, não pode ser. E então que o artista usa outro nome? Bonnie “Prince” Billy é quando o homem quiser, nada a fazer.
“Wolfroy Goes to Town” é um longo Inverno em disco. Com um valente cobertor, é certo, que a voz de Oldham presta-se a ser bênção para ouvidos sem abrigo. Mas é uma travessia gélida por uma América desencantada, aquela que não sabe o que é Nova Iorque nem Hollywood, que não se desfaz em tecnologias nem em redes sociais, que só sabe ser deserta, pobre, temente a um deus cada vez maior e fiel crente nas coisas certas como o nascer e o pôr do sol. É folk mas não canta desencantos sociais e confusões urbanas; é country mas não se escuta como se fosse vender milhões de álbuns, como se andasse na maior pick up do país ou usasse fivelas em jeito “ai jesus”. “Wolfroy…” faz-se de canções sobre “um dia vamos ser felizes”, chora a simplicidade e apesar de uma evidente escolha estética, é uma carapuça que serve as misérias de muitos. É mais um papel de Will Oldham, o de redentor, mas desempenhando com tanto esmero que dói. Tivesse mais galope em determinados trotes menos empolgantes e seria incurável.
publicado no ‘i’
(Bonnie Prince Billy actua em Portugal nos próximos dias 23 e 24, no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, e no Teatro Maria Matos, em Lisboa)
