De cada vez que as notícias dizem “Björk vai ter um disco novo”, o mundo quer pular e avançar, mesmo sem ouvir um segundo que seja. Esperamos sempre uma revolução, que finalmente o teletransporte seja uma verdade, que o iPhone passe a custar menos de 200 euros. E depois, quando finalmente nos confrontamos com a obra da islandesa, o planeta continua a rodar, a rotina não se altera e o despertador acaba por tocar sempre à mesma hora. Mas, no meio de toda esta boa-nova que fica por cumprir, há uma epifania de brincar que nos é revelada entre sons indecifráveis: nada do que esperávamos aconteceu mas ficamos com a sensação que um dia, um dia tudo o que temos como futurista vai ser coisa do presente. É ouvir “Biophilia” e perceber porquê.
Com Björk, temos a liberdade de antecipar o que aí vem e, caso alguma coisa se confirme, não carregar uma desilusão ao estilo “já sabia, estava-se mesmo a ver”. Porque esperamos blips e blops e uma voz que não sabe acabar e um ambiente sonoro que nunca vamos descobrir como é efectivamente construído. E tudo isso nos é oferecido, mas com um controlo pouco habitual. Não há rotações a mais nem explosões de sentimentalismo. A energia é controlada como uam precisão assombrosa, sem que isso maltrate o resultado final. Um disco que é uma ode aos elementos que constroem o mundo, aquele onde temos os pés e o que desconhecemos, das placas tectónicas à atmosfera e seus parentes distantes. Com instrumentos encomendados pela própria, porque pode e quer estar além das fronteiras; com uma capacidade notável de ser medieval nas estruturas à medida que as corrompe sem noção do tempo; e iPads que tocam e canções que vão dar aplicações de iPad (claro). E liga tudo tão bem que faz confusão.
