Ry Cooder é um historiador da América – e um dos mais brilhantes na tarefa. América aqui é o continente, é a dialéctica permanente entre colonizadores e colonizados, e o seu narrador está-_-se nas tintas para a diplomacia, assumindo as origens e os percursos que se cruzam no mesmo (grande) pedaço de terra. Não esquecendo nada, nem o bem nem o mal que fizeram uns aos outros, Cooder mistura tudo em música. Canta os blues em castelhano e escreve orações com ritmos mariachi, como se o gospel pudesse ter todos os sotaques que por ali se coleccionam, de norte a sul. Como? E isso lá interessa, por acaso?
O músico em questão passou anos embrenhado nas glórias e nas desventuras da Califórnia (com a trilogia de discos que lhe corresponde, editada entre 2005 e 2008) para se cansar da regionalização e voltar ao nomadismo controlado que o caracterizou quando, em meados dos anos 70, fez do tex-mex chunga uma iguaria gourmet. Mas isso foi há quase 40 anos. Hoje a destreza guitarrística é maior e o gosto mais refinado. Não há gordura extra nem temperos a pedir sal, e Ry Cooder tem mais lata que nunca.
“Pull up some Dust and Sit down” é um manifesto político, escrito por quem preza a sua realidade mas acredita que tudo podia ser diferente, “isto está bem é o tanas” transformado em coisa de guitarras. Apelos contra o enriquecimento destravado e a pobreza estrema, manifestos pró-participação política, motins antiguerra controlados e seus derivados. Um disco que é uma crónica gigante a cavalo, que vê e, sem se limitar ao relato, comenta. Um Woody Guthrie desperto e consciente, mas que se torna trovador apenas depois da descoberta da electricidade dos seus benditos efeitos.
