Em 2008, Stephen Malkmus editou, com os seus Jicks, o álbum “Real Emotional Trash”. Uma bagunça apaixonada, sem plano nem regra, quase progressivo, quase psicadélico mas sem ser nenhum dos dois. Este caos confortável é uma das duas manias de Malkmus. A outra é editada na próxima semana, com o nome “Mirror Traffic”. Um novo álbum que é um tratado sobre a necessidade de açúcares musicados na dieta de quem sempre foi cool sem ser in, para quem podia ter sido tudo e só foi o que quis. Lípidos melódicos para gente de linha cuidada, na forma de canções com princípio, meio e fim.
Como sempre, desde que os Pavement encheram o rock alternativo americano – e, por contaminação, o de toda a parte – de confetti e bailaricos sem sincronia possível, Stephen Malkmus continua a fazer canções porque a tarefa lhe dá gozo. Não é infantilidade crónica nem nenhum caso de eterna adolescência. É apenas a história de um homem de certezas curtas mas seguras, que colecciona poucas exigências e de minimalismos. O perfil serve de engodo para quem o vai escutar e pensa que a maleita é contagiosa. Nada disso. Mas canções sobre gente bonita que calça sandálias caras garantem – mesmo que temporariamente – que o quotidiano pode ser chique–cool-irresponsável-meu-bem; que todas as relações são estáveis enquanto duram e que por isso a felicidade acompanha-as; que a política casa com pornografia, claro que casa. Com uma banda que é distorcida sem agressividade, que é punk do nordeste americano (controlado, por isso), que veste camisas por engomar mas bem escolhidas. E com a produção de Beck, que pôs o nervoso miudinho de Malkmus no lugar mas sem alinhamento de arestas e lhe acrescentou umas escapadelas sónicas inesperadas. Enfim, a alternativa madura é um fenómeno popular e nós agradecemos.
