Zomby era um dos nomes mais esperados do festival All Tomorrow’s Parties deste ano. A curadoria foi assinada pelos Animal Collective e deu pontos extra ao crédito que o produtor e DJ britânico colecciona desde 2007, entre singles, EP e álbuns (como “Where Were You in 92”, de 2008). E o que fez Zomby? Não apareceu, o desnaturado, que só tem educação para pedir licença a si próprio. O outro lado da moeda: esta rudeza de pelintra suburbano serve-lhe bem a criatividade. “Dedication”, o novo álbum, é electrónica que não dança, que tem o sofá como desafio maior, banda-sonora para nada em concreto – e ainda assim é desafiante. Respeito, por favor.
No antigamente, Zomby era um cruzado do jungle, baixo e batida para que vos quero. Com grime e UK garage pelo meio, tudo de capuz enfiado na cabeça, anónimo até hoje. Importava a febre do clubbing, a pista dançante mas quebrada, “Fuck Mixing, Let’s Dance”, dizia o próprio. Mas em “Dedication”, Zomby entregou-se à contemplação em ambiente negro. Com o carimbo da 4AD, o disco tem todos os tiques sombrios e melancólicos da genética da editora, ainda que fuja da estrutura habitual da canção. As excepções são “Things Fall Apart”, com a voz de Panda Bear, e “Natalia’s Song” (tão perto de Burial, por aqui). A regra? Baixar a rotação a tudo o que fazia antes e injectar doses de dub de boa casta. Começar sempre com o tempo inesperado e acabar antes que a adrenalina chegue ao topo. Fazer crescer água na boca, com sons estudados ao pormenor, mas nunca saciando os gulosos, terminando cada tema (sempre curtos) quando menos queríamos, deixando o êxtase pendurado – azar. É a falta de boas maneiras que o acompanha, a trabalhar na perfeição. Fizesse a vontade a alguns instintos mais óbvios, aproximando-se mais dos limites, e estaria perto da perfeição.
