Mesmo que Charles Bradley não fosse uma descoberta tardia, ao editar os seus primeiros singles com 62 anos; ainda que não tivesse sido protagonista de uma história de vida perfeita para magazines televisivos dedicados a tragédias e existências infelizes; mesmo que não viesse actuar a Portugal pela primeira vez, com um concerto agendado para o Cool Jazz Fest, no domingo… raios, este homem toca com a Budos Band, mestre das coisas da soul e do funk, é herdeiro (artístico) directo de James Brown e assina discos pela Daptone Records, “a” editora da melhor música negra americana dos nossos dias. Seria sempre fácil justificar uma conversa com ele, ainda que curta, com um telefone rezingão e a quilómetros de distância. Ainda assim, é ele que nos agradece: “Obrigado pela atenção, prometo dar o meu melhor em palco.”
Esta humildade é crónica. E não há ali ponta de engodo para jornalista/leitor ver, nada. Charles Bradley tem adoração por quase tudo e medo do que resta. “Passei por coisas complicadas, não interessa agora quais, isso ia demorar muito tempo. Mas tudo o que aconteceu fez com que tivesse muitas dúvidas. Não acredito em muito do que vejo e acho que não tenho remédio quanto a isso.” Estas “coisas complicadas” dizem respeito a anos de vida nas ruas, década de 60 entre lutas por direitos civis, emprego-desemprego uma e outra vez e uma maldição sobre os seus sonhos artísticos: “Imaginas como é difícil conseguir que alguém acredite em ti quando nunca ninguém ouviu o teu nome? Muitos deles hoje devem estar com problemas de consciência.”
Bradley podia sempre ter desistido. Passou anos como cozinheiro, essa teria sido uma boa solução. Cruzou-se com o Ku Klux Klan e com momentos menos agradáveis da história dos Hell’s Angels. Malvadez deste tipo não mata mas mói, até que dá de caras com este optimista impossível. Explica-se assim a insistência que o levou a gravar “No Time for Dreaming”, um dos melhores álbuns deste 2011, até ver: “Duas coisas fizeram com que não desistisse. A música Soul e Deus. E escreve os dois com letra maiúscula.” Charles diz-nos mesmo que “na verdade é apenas uma coisa, está tudo ligado”, mas preferimos separar conceitos. “A música soul vive-se, tem a ver com as dores que temos, que só se partilham através das canções. São lamentos com música e por isso ninguém lhes fica indiferente. Escapar a isto, nunca, nem que muito se queira.” A religião é herança de família: “A minha mãe e a minha avó sempre me disseram que Deus me iria ajudar. O que posso fazer agora senão acreditar? Nem James Brown me deu a mão, e podia tê-lo feito.” E aqui encostamos melhor o telefone ao ouvido. Charles Bradley passou anos a actuar como imitador de James Brown – na verdade, foi esse malabarismo que convenceu a boa gente da Daptone a mudar-lhe a vida. Na hora decisiva, o messias da soul e do funk, Mr. Dynamite, disse que não. Vergonha ou história mal contada? “Bom, a verdade não é bem essa. Conheci-o num bar em São Francisco. Disse-lhe ‘James, sabes que sou capaz, dá-me uma oportunidade.’ Ele respondeu-me ‘Sei que sim, Charles, mas não posso deixar–te subir ao palco, ias roubar-me o espectáculo’.” A melhor história para contar a quem tenha dúvidas quanto a ver ou não o concerto de domingo.
