WU LYF: ‘Go Tell Fire To The Mountain’

As canções dos WU LYF (lê-se “Woo Life”) não servem para cantar em momentos de lazer ou melancolia– o caos instrumental e a desordem melódica que as gerou não o permite. Dançá-las é difícil, que para tal tarefa o corpo pede por ritmos certos e constantes e isto é um salve-se quem puder de tempos e compassos. E são protagonizadas por um vocalista – Ellery Roberts – que não quer que percebamos nada do que diz. Porquê então perder tempo com anti-heróis assim, se à primeira vista os ingredientes que cozinham a ligação primária entre música e ouvinte estão mal temperados? Porque de primeiras impressões está o inferno da criação pop cheio. O açúcar musicado é das melhores coisas que a cultura urbana pode oferecer. Mas descobrir que é possível ser seduzido pelo áspero, pelo rugoso, é qualquer coisa

WU LYF significa World Unite! Lucifer Youth Foundation. Se é comprido também é perfeito para corropios internet. E a técnica de black out, utilizada durante o ano passado, garantiu curiosidade que, na falta de outra informação disponível, encaminhou todos interessados para as canções disponíveis. “Heavy Pop” foi então protagonista, assumindo algumas das mais estimados peças do puzzle indie – teclas dramáticas que crescem até haver possibilidade de explosão, melancolia transferida para uma voz sofrida e uma manipulação rítmica que pode ter quatro faces em cinco minutos.

Chega o longa-duração para dizer que é possível fazer dez temas assim sem soar repetitivo. A banda já fala com quem lhe faz perguntas e as brincadeiras sérias (e de bom marketing) sobre secretismo acabaram. Mas apenas porque a música, agora revelada na sua coesão, lhes dá assunto de conversa. Um disco gravado numa igreja e produzido pela banda. Parece cliché alternativp mas faz sentido: os WU LYF são detalhistas compulsivos, com um baterista que virou baixista e um vocalista que o é por acidente. Adaptaram-se para sobreviver e acreditaram que a sua música poderia garantir descrições como “isto é Walkmen cruzado com Wolf Parade mas sem morder”. Conseguiram tudo e fizeram um álbum tanto para miserabilistas de quarto fechado à chave como para os que acham que o mundo é deles quando se passeiam pelas ruas de auscultadores nos ouvidos. Em qualquer dos casos, é gritar: vitória.

publicado no ‘i’
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