‘Black Lips’: graciosos hinos irresponsáveis

Antes os Black Lips era quatro rufias com dinheiro suficiente para comprar instrumentos musicais (nada de muito sofisticado, o básico para cantar desaforos), droga para efeitos festivos e combustível que os levasse a tocar num palco qualquer, onde quer que fosse. Pelo meio, causavam distúrbios adolescentes em concertos de garage rock para abanar as ancas. Agora, os Black Lips são exactamente o mesmo, mas com “Arabia Mountain”. O que nos diz o disco? Que este quarteto de Atlanta, Georgia (terra muito americana), fez uma curta pausa na sua loucura controlada para decidir ser famoso e ter os jornais e os blogues a comentar as canções e não os malabarismos da banda em palco – estes vão de habilidades com animais a virtuosismos genitais. Uma aposta: vão conseguir.

“Arabia Mountain” não é um disco melhor que “Good Bad Not Evil”, de 2007. Nesse tempo, os Black Lips tinham poucos medos e toda a lata do rock. Atiravam-se de cabeça a cada tema apenas pelo apelo de um balanço safado, bastava-lhes saber que a música soava a fora-da-lei para não mais desligarem a distorção. Já “Arabia Mountain” foi construído em dias de maior ponderação criativa. Os Black Lips quiseram fazer canções, princípio-meio-e–fim à moda da história da pop, sem perder o nervo punk e o aspecto mal lavado dos arranjos. E_por isso renderam-se à ajuda externa e tiveram o apoio à produção da estrela dos estúdios Mark Ronson e do herói indie Lockett Pundt, membro dos elogiados Deerhunter. Não se perde grão na música, tudo continua a ter início e fim nas guitarras primitivas, na secção rítmica áspera, que não quer saber de variações de estilo nem de cor. Mas há menos espasmos e mais controlo sobre os nervos, maior capacidade de dizer tudo o que há para dizer em menos de três minutos.

Da secção “ele há coisas que poderiam estar melhor”, o grande destaque vai para o alinhamento de 16 canções, que não tem fôlego que chegue para se aguentar até ao fim com o mesmo ritmo. Mas com canções como “Family Tree”, “New Direction” e a brilhante “Modern Art”, os Black Lips podem mesmo vir a conquistar atenção para algo mais que não o circo que por vezes protagonizam.

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