Manel Cruz: supernada a ver com estrelismo pop

Uma conversa em modo relâmpago, feita antes do concerto no CCB, ontem à noite, mas que ainda assim não vai magoar ninguém por aparecer aqui em formato atrasado. Coisas da vida e outras que tais

Falámos com Manel Cruz ao telefone, depois de uma primeira tentativa em que apanhámos o músico entre corredores de um supermercado. Demos-lhe tempo para arrumar as compras, antes de esclarecer os porquês de mais uma transição.

OK, podemos começar.

E pode ser com uma pergunta fácil?

Claro.

Porquê o fim do projecto Foge Foge Bandido?

Andamos a tocar há três, quatro anos, e não houve assim tantos concertos. O tempo de trabalho já é maior que o de consumo. Algumas pessoas estão agora a começar a conhecer e nós já estamos cansados. Divertimo-nos ao vivo, mas queremos outras aventuras.

E um Foge Foge Parte 2?

Bom, a questão, mais do que “porquê acabar?” é “porquê não acabar?”. Quando paramos um projecto começamos outro e não pegamos mais no antigo porque a nova máquina já está a andar. Para fazer um Bandido 2 era necessário fazer um processo mais cerebral que o instinto que nos leva a fazer uma coisa nova.

Dado o currículo, é seguro dizer que tem um gosto especial por acabar umas coisas para começar outras.

Sim, tenho. Os Ornatos [Violeta] foram aquela coisa da banda, família mafiosa, cosa nostra, fruto de uma paixão inicial que motiva a criação de uma banda. Há pessoas que gostam do “formato carreira”. Eu sinto-me menos músico nesse sentido, procuro uma abordagem mais artística, e ajuda-me o desprendimento da carreira, tenho mais liberdade. Claro que assim não posso contar com o ovo no cu da galinha, mas prefiro isto a outros compromissos.

Mas família e outras responsabilidades exigem segurança.

E por isso às vezes passa-me pela cabeça mudar o esquema. Mas a verdade é que estruturas maiores, que parecem mais certas, exigem uma abordagem que não é necessariamente boa. Há mais gente, mais confusão.

Quer isso dizer que os anos na estrada e os diferentes projectos já lhe trouxeram desilusões?

Já, mas depois vamos criando defesas, vamos aprendendo a dizer que não para não sermos apanhados de surpresa. Houve alturas com os Ornatos em que tocávamos muito e eu andava cansado e deprimido, já nem sabia o que andava ali a fazer, mais as multinacionais… Mas fui eu que deixei que tudo isso acontecesse. Agora tenho estruturas mais pequenas e não me vejo nos mesmos filmes. Não sou um músico de carreira, não quero estar sempre a aparecer, quero estar na minha casa.

Há quem se queixe que sabe pouco sobre o Manel Cruz além da música.

E isso é bom. Às vezes recuso dar entrevistas e fazer outras coisas, mas não é para estragar a vida a ninguém. E tento trocar, “faço uma ilustração em vez de uma conversa”, algo assim. Não quer dizer que vá ser uma estrela, mas se puder precaver-me quanto a isso melhor.

Outra pergunta óbvia: e agora? 

Para já vamos gravar três concertos no Porto, no Café Concerto, a 11, 12 e 13 de Julho, para depois fazer um filme em DVD. E depois há os Supernada, cujo disco já está gravado e sai até ao fim do ano. No entretanto, quero ter um período de pesquisa, a mexer com os meus aparelhos.

publicado no ‘i’
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