You Can’t Win, Charlie Brown: o nome engana, isto é gente para ganhar

A banda começa com três músicos e as canções aparecem; a coisa complica-se, no bom sentido, e é necessário ter mais alguém na companhia; quatro gravam um EP e continuam a experimentar, das cordas aos coros femininos; vêm os concertos e os recursos humanos não chegam, venham mais dois; chegados aos seis fecham-se as contratações; depois é dar nas vistas e gravar um álbum. É isto a pré-história dos You Can”t Win, Charlie Brown contada em poucas linhas. Uma novela de longos capítulos e inesperadas reviravoltas? Nada disso. Isto é um folhetim ligeiro, levado como coisa amena, mas esforçada. Diz–nos Salvador Menezes: “Tudo isto foi uma surpresa. Fomos tendo sorte, também, logo desde início.” Entre aspas fala um dos fundadores da banda, melhor acreditar na sua palavra.

Falamos em pré-história porque o ano zero desta boa gente tem por título “Chromatic” e vai acontecendo por estes dias. É o primeiro longa-duração da banda e deu nas vistas quando alguns turistas, seduzidos pelas coisas portuguesas, destacaram a obra noutras montras que não as domésticas. Dos blogues de curiosos não profissionais aos ouvidos elogiados da revista francesa “Les Inrockuptibles”, os You Can”t Win, Charlie Brown coleccionaram vénias e agradeceram: “Foi muito bom, até para que algumas pessoas pudessem ter pensado em algo como ”onde é que estes tipos andavam que não demos por eles?”” Nada disto nasceu fruto de uma estratégia de promoção mas funcionou na perfeição. Pedimos explicações, claro está. Salvador esclareceu: “A nossa manager é americana e vive em Inglaterra. Daí até termos sido ouvidos lá fora antes de muitos cá dentro o terem feito não foi preciso muito.”

Tudo à distância de uma boa lista de contactos e com recurso às graças das novas tecnologias e às possibilidades da vida virtual. E com nada a favor do discurso “só neste país” – tratou-se apenas uma questão de antecipação internacional: “Não existem assim tantas falhas na música em Portugal. Cada vez aparecem mais bandas de qualidade e estão a ser credibilizadas.” Como vocês, caros You Can”t Win, Charlie Brown, que já foram comparados com coisas de gente grande, como Grizzly Bear e Radiohead. Claro que o bando criativo em questão ouve tais heróis e tem por eles consideração de sobra. Mas nada de exageros: “Entendemos as comparações, levamo-las como elogios ou pontos de referência. Como aquelas etiquetas das prateleiras de lojas de discos que ajudam os compradores, por estilos”, diz-nos Salvador.

De onde vêm estes paralelos invejados por muito boa gente com aspiração a indie-rockers de capa e espada? De um disco feito às camadas, de instrumentos sobre instrumentos, de harmonias pensadas ao milímetro. “Chromatic” nasceu de canções pop, de refrães escritos para serem decorados e cantados em coro, de letras pessoais, mas não muito – ou seja, de tudo aquilo que construiu os documentos mais emblemáticos da história da música urbana. Salvador recorda conversas em estúdio e entre palcos: “Chegámos à conclusão que o mais importante no nosso processo são os arranjos, os detalhes. É por aí que uma canção se transforma por completo e se torna menos óbvia, mais interessante. Daí a importância da democracia no nosso processo.” Que é como quem diz “pouca disciplina mas muitos e bons resultados”: “Tratamos de todos os assuntos por email e as canções também nascem nesse processo.” A velha história do grão a grão etc. e tal, mas nos tempos das maravilhas electrónicas. Entre mais bandas, outros empregos e as vontades de seis pessoas, “Chromatic” descobriu o melhor dos caminhos, com filigrana pop cuidada ao pormenor, por uma banda que teve até o cuidado de pôr uma vírgula no próprio nome.

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