Bon Iver, ‘Bon Iver’: O Inverno do nosso contentamento

É mais óbvio escrever canções sobre dores de alma e desilusões do que transformar alegria e contentamento em rimas harmonizadas. Estando feliz da vida, o músico tem mais que fazer do que isolar-se do mundo para compor – já quando se sente miserável, esse mesmo mundo não existe, nada mais há a não ser chorar sobre o leite derramado. À parte desta dialéctica, existem músicos como Justin Vernon, que fogem à regra como felino escapa de tudo o que é água. Não merece a pena investigar o quotidiano do homem nem as suas experiências mais íntimas. As certezas temo-las todas com a música que escreve: efusivo ou desesperado, Vernon transforma melancolia em música como há muito não se escutava. Para quem as comparações são ajuda preciosa, é como se o mundo das coisas cantadas fosse feito apenas de Neil Young, Will Oldham e Nick Drake. Descobrimos as maravilhas deste exercício na estreia de 2008, “For Emma, Forever Ago”, e reencontramo-las, com júbilo, no novo “Bon Iver”.

O disco tem o nome do artista porque é de bom Inverno que se fala. A existência cinzenta iluminada por espasmos solares, em canções frágeis mas certas da sua intenção. É uma colecção de memórias sobre as raízes de Justin Vernon. Ele que continua a viver na pequena cidade do Wisconsin onde nasceu, um quase eremita, com pouco de social, apesar das atenções que tem despertado: as da crítica, as do público e as de estrelas como Kanye West, com quem já partilhou palcos e gravações em estúdio. Foi este mediatismo que marcou a mudança entre “For Emma, Forever Ago” e “Bon Iver”. Antes, Justin Vernon era um solitário cantor de amarguras, escondido da neve numa cabana com uma guitarra e um gravador (literalmente). Agora tem uma banda de corpo inteiro, arranjos estudados com antecedência, surpresas instrumentais e aventuras vocais (contidas, nada de exageros). Ficam-lhe bem as novas cores, Vernon é homem de muitos cuidados na hora de combinar trapos. Por isso, que ninguém se sinta culpado se a pancada emocional não for a mesma com este novo disco como foi quando pela primeira vez lhe ouvimos os lamentos: há mais distracções. É tudo uma questão de tempo – ser fã deste Inverno prolongado é uma questão de tempo, muito pouco tempo.

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