Era uma vez um decidido intérprete de guitarra distorcida, dividido entre as heranças do punk/hardcore e tudo o que fosse electricidade experimental. Rui Carvalho, de seu nome, que construiu percurso em bandas como os If Lucy Fell e os Asneira, era herói de pouco mediatismo, até que se rendeu a um velho amor, a guitarra clássica. A novela começou como passatempo, evoluiu para desafio e deu em disco, “Palácio”, com a promessa de concertos no horizonte (como o de domingo, no Clube Ferroviário, em Lisboa, às 19h). Primeiras curtas palavras sobre esta entrega incondicional, Rui: “Provavelmente, tem a ver com a madeira da guitarra.”
Como quase todos os aprendizes de guitarrista, Filho da Mãe (dos melhores nomes pop dos últimos tempos, sem nunca o querer ser) começou pela verdade do som acústico. Essa disponibilidade para um som honesto, com erros e medos incluídos, tem paralelo na vontade em experimentar todo o tipo de linguagem musical: “Lembro-me de explorar universos distintos. O rock andava por lá, claro, mas pouco depois estava na Brigada Vítor Jara”, lembra o ainda ecléctico instrumentista e agora arrojado compositor. Ainda assim, esta inquietação de artista imberbe não o levou a preencher formulários de inscrição em escolas de música. O método de descoberta e crescimento teve mais a ver com instinto de sobrevivência. Diz-nos este Filho da Mãe: “Não tenho formação nenhuma. Na verdade, isto é como perseguir a sombra. Por vezes, esse exercício dá em música. Tem a ver com o ser teimoso e um pouco maluquinho da cabeça. Todos os músicos precisam de um lado compulsivo.”
Exemplo maior desta teoria está no próprio Rui Carvalho e nos temas de “Palácio”. As dinâmicas ininterruptas que atravessam aquelas cordas são obra de nervo na pele, de ansiedades por explicar. “Não sou um tipo de escola portanto o instrumento controla-me a mim com muito mais facilidade do que o contrário acontece. Acho que parte da piada de Filho da Mãe vem daí. Sou eu a tentar controlar aquilo de alguma maneira, é uma perseguição.” Pode ser que este músico receba uma mensagem de um desconhecido com algo como “caro Ricardo, é notável como tudo isso está bem patente na música que se escuta”. As cordas vão como vêm, às tantas procurámos origem e destino mas é escusado, já estamos demasiado imersos no que está a acontecer: violência e subtileza na mesma mente musical, uma pescadinha de rabo na boca com espinhas feitas de emoções complicadas de descrever. Como se o caos fosse manipulável ao ponto de caber numa guitarra sozinha.
Rui Carvalho não quer fazer disto poesia mas explica os porquês de tanto buliço com uma confissão sentida: “Sempre achei que conseguia pôr mais coisas cá fora com a música, com a guitarra. Isto é comunicação. Não preciso de voz, nunca teria nada apara dizer.” Mas fê-lo sozinho, como confissão. Isolado em estúdio e nos palcos que aí vêm. Tarefa árdua para um homem de bandas – “é necessária uma adaptação complicada, ainda não a tenho totalmente” – mas cumprida com classe, até ver.
Uma semana para gravar o disco, em casa de Makoto Yagyu, produtor e também ele dos If Lucy Fell (e PAUS e outras coisas mais). “Um sítio onde vive muita gente, onde entram amigos, onde se fazem festas. Tudo enquanto gravava os temas, em ambiente urbano mas com algo de provinciano pelo meio”. A alcunha da casa em questão? Palácio. Fica tudo explicado (em caso de dúvidas é ouvir o álbum, os esclarecimentos vão surgir sem aviso prévio).
