The High Llamas, ‘Talahomi Way’: Um descapotável que não despenteia

Se tudo correr como previsto, em quase toda a parte onde este texto for lido (toda a parte portuguesa, isto é), o disco de que se fala pode servir de banda-sonora, sem constrangimentos. As premissas desta afirmação são puramente meteorológicas mas não devem ser subestimadas. Confirmam, mais que tudo, que “Talahomi Way” é um disco nascido de óculos escuros, sem calores absurdos mas com temperaturas da família da dupla calção-chinelos. Não é revolução no percurso dos The High Llamas, mas a pontaria é tão certeira que soa a novidade. Culpa de Sean O’Hagan, um crente nas coisas da pop que criou dogmas para o seu projecto e encontrou os apóstolos perfeitos para lhe legitimarem as decisões.

O’Hagan faz isto pelo menos há 20 anos (antes dos The High Llamas já brincava às melodias, mas esta banda transformou tudo em coisa séria). E com tanta escola é natural que as lições lhe saiam sempre afinadas, com a matéria a soar cristalina a qualquer novo aprendiz. O homem é fã de Brian Wilson e de Burt Bacharach. Orquestrar para simplificar, portanto, ou quando não é possível complicar a escrita de canções, por mais linhas, pontos finais e travessões que se utilizem. “Talahomi Way” é um sem fim de soluções para o mesmo problema: fazer do sol e seus derivados uma realidade cantada. “Take My Hand”, “Fly Baby, Fly” ou “Calling Up, Ringing Down” são passeios pelo campo, de mão dada e cesta forrada a toalha aos quadrados. Um descapotável a baixa velocidade, sem despentear. Num dos bolsos da vestimenta larga deste passeio há amuletos de psicadelismo à moda de Syd Barrett (com pouco ácido, só um cheirinho); no outro há a Califórnia de Crosby, Stills, Nash & Young. Mas porque Sean O’Hagan – e aqui o nome não deixa margem para enganos – tem tudo e mais alguma coisa de britânico, também há uns trocos de sentimento bucólico, mascarado de exercícios barroco. Vai que Paul McCartney e os seus exercícios ao piano se encontram com o escapismo de uns Belle & Sebastian: caso tal fenómeno tivesse lugar, “Talahomi Way” poderia ser um fruto provável. As referências servem só de pista, juntar tudo não tem nada de provável. Mas os The High Llamas têm jeito para a coisa e fica-lhes o esforço em ser tudo o que puderem ao mesmo tempo.

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