Norberto Lobo, ‘Fala Mansa’: cinco estrelas

A classificação – que pode levar o leitor mais desinteressado nas coisas dos discos a ler este texto – está no título. Fim das dúvidas. Cinco estrelas. Norberto Lobo é um músico notável e, assim sendo, não há volta a dar. O génio deste homem nasce à guitarra mas por aqui há mil e uma escutas de tudo o que o rodeia, trituradas por um só instrumento (nem sempre mas quase sempre) e devolvidas através de formas em nada limitadas por seis cordas (ou menos, ou mais). Isto é manipulação da mente, somos perfeitamente enganados ao longo de todo este “Fala Mansa” e aceitamos tudo, vendidos, sonsos, que bom. Norberto Lobo mostra-nos um mundo grandioso, uma paisagem arrebatadora a partir de um miradouro que fica lá bem em baixo. Esqueçamos as fotos, não dá, só vendo com os ouvidos.

Antes de “Fala Mansa” houve “Mudar de Bina” e “Pata Lenta”. Primeira conclusão: Norberto Lobo é dos melhores músicos portugueses a escolher títulos para discos. Segunda conclusão: Norberto Lobo é dos melhores músicos portugueses. Já sabíamos das duas antes deste terceiro volume, mas – raios – agora não pode haver quem não saiba. E não é guitarrista, é mesmo músico. Se ser virtuoso é ser bom, se é fazer aquilo que o instrumentista de quarto não faz, nem que muito queira, então Norberto Lobo é virtuoso, mas na guitarra a sua virtude tem apenas ponto de partida. A verdade é que o artista poderia ter escolhido qualquer outro suporte, poderia ter vendido a alma ao diabo em troca de outras mestrias musicadas. Teria sempre pontaria afinada. Porque o seu mais-que-tudo é fazer momentos gigantes a partir de curtos instantes. Há, nesta música, tradição americana, da folk aos blues, há subtis referências ao triângulo atlântico falante das coisas lusas, há Carlos Paredes e Jack Rose e John Fahey. Mas também há tamburas e bandolins e pianos e vozes fantasmagóricas. Norberto Lobo tem nome para ser protagonista de fábulas e é, ao mesmo tempo, autor de histórias. Os seus temas têm corpos, são “Balada para Lhasa”, “Requiem para as Abelhas” e “Charleston para Jack”. E de tão concreta que é, ocupa espaço, todo o espaço. Não tem voz o tanas. Tem tudo.

publicado no ‘i’
Esta entrada foi publicada em Discos, Música, Norberto Lobo. ligação permanente.

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s