Tune-Yards, ‘whokill’: um disco que é uma crise nervosa

No início do disco há uma voz que não tem nada a ver com a música que esperamos. Ou seja, até ver está tudo bem. Os Tune-Yards (na verdade escreve-se tUnE-yArDs, que é para complicar as contas) são peritos em confundir a confusão e num pequeno grande universo de caos regulado como este não se pode abrir um disco com boas-vindas calorosas. Depois vem o ritmo, seco, preso às articulações mas a fazê-las mexer. Há uma voz que só é feminina porque se quer impor sobre tudo o resto, fazendo-nos crer que não há nada melhor – se esquecermos isso, o que ouvimos é alguém a    domar o princípio primitivo do grito, tornando-o melódico. A melhor parte de tudo isto? Nunca acaba, repete-se em todas as canções, é a melhor crise nervosa dos últimos tempos e cabe toda num disco feito de ângulos rectos.

“whokill” (mais uma grafia alternativa) mostra uma banda certa de que está a fazer história e que assina as melhores canções difíceis do momento. Porque o desafio de Merrill Garbus (a tal voz feminina) é nascer de um riff, de uma guitarra adolescente com atacadores coloridos, e destruí-lo, desmontá-lo, para depois fazer o mesmo com vozes e percussões – que em boa parte também são suas – e letras sobre violência social. O hip-hop de contestação transforma-se em punk sinfónico (como?). O lo-fi, ou seja, as brincadeiras de quarto em instrumentos de plástico, chegou ao estúdio profissional. Finalmente. Dêmos graças

Dez canções que querem fazer o retrato da América urbana, de ruas sem rumo, de gente meio perdida, para sempre. Mas fazê-lo com uma visão límpida como nunca seria de esperar. A lata que esta gente tem para fazer canções desnorteadas diz-nos que não há idade suficiente para que responsabilidades ou sentimentos de culpa influenciem o resultado final. Mas a vontade que as faz é de tal forma feroz que incluir loops manipulados, afro-beat e guitarras em diálogos pouco direitos é a de quem parece mover-se nisto há muito tempo, suficiente para fazer escola apenas com dois álbuns editados (este e “Bird-Brains”, de 2009). Imaginamo-los neste momento a ouvir insistentemente Neutral Milk Hotel e Dirty Projectors. Indisciplina de tempos diferentes para fazer uma nova. Perfeito.

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Uma resposta a Tune-Yards, ‘whokill’: um disco que é uma crise nervosa

  1. Ershin diz:

    O legal mesmo é continuar emulando Dinossaur Jr., Pavement e Teenage Fanclub.¬¬
    Música nova não interessa.

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