Na foto dos Yuck que aparece nesta página, Jonny Rogoff é o rapaz à esquerda. O do penteado rock”n”roll; o americano de Nova Jérsia; o músico sem técnica para nada em específico mas que já tocou de tudo e agora é baterista; o único que, nos documentos guardados pelo YouTube, parece ter disposição para falar com jornalistas e soltar gargalhadas à frente de estranhos. Sortudos nós os que falamos com este amigo das coisas mediáticas na idade do “ser-indie-é-que-é-bom-para-a-cena”. À vontade, mesmo à vontadinha, Rogoff diz-nos “estás a falar com a melhor banda do século XXI a fazer música dos anos 90″. Curioso: tanta falta de vergonha, skinny jeans tão skinny e com meias brancas e, no final das contas, este rocker alternativo rende-se ao que os press releases e os textos online vão dizendo sobre ele e o seu grupo de amigos. “Não é verdade, tu sabes que não”. Não sabemos nada, a nossa imparcialidade não permite tal atitude: “A sério, tu sabes que não é verdade. Éramos todos bebés nos anos 90 e entretanto tivemos mais que fazer que ouvir esses discos.”
Os Yuck nasceram no deserto, em Israel – “é verdade, não inventámos isso só porque nunca acontece e dá estilo como o raio”, confirma Jonny, entre mais uma das gargalhadas que fazem o nosso gravador registar picos sonoros. O grupo junta dois ingleses, este americano e uma baixista japonesa, natural de Hiroshima – “qual era a probabilidade de isto acontecer”, continua Rogoff, perplexo com os seus próprios feitos. E têm em Londres o seu quartel-general, cidade “escura, com uns dias muito curtos”, desabafa Jonny: “Mas com tudo para não a querermos trocar por nada, Londres nasceu para o punk rock, para ser propriedade colectiva.”
Aconteceu tudo a gente que agora faz 20 anos, que se diz “nova mas com responsabilidades definidas”, sem ilusões mainstream mas a suar júbilo por ter data agendada no concorrido Primavera Sound de Barcelona, em Maio próximo (“Primavera Sound, meu, é o festival dos festivais, já viste bem o que pode acontecer?”, ou Jonny Rogoff em mais um momento de libertação). A culpa é dos próprios e das suas canções para roadtrips juvenis sem quilometragem limite. Mas também, e em grande parte, das mil e uma linhas de elogios que receberam de quem faz listas com títulos próximos de “o melhor do que está para vir”.
No final de 2010, a antecipar este 2011, lia-se algo como “o regresso dos 90s”, ou “assim se marca o renascimento do shoegaze e do grunge”. Exagero de ambas partes, mas sem querer escapar ao inescapável – não é difícil ouvir nestas canções dos Yuck referências aos feitos de gente como os Pavement e os Dinosaur Jr, das guitarras que formam ângulos de amplitudes generosas, de rimas e métricas deslavadas e inesperadas, de relatos de uma juventude suburbana, consciente mas pouco ambiciosa.
“As pessoas precisam de ter alguma referência, entendo isso. Com a quantidade de música que existe disponível, não dá para ouvir tudo, é preciso escolher. E essas comparações servem de filtro.” Obrigado pela resposta diplomática, Jonny, mas e a verdade, o que te passa pela ideia quando vos dizem tais coisas? “É para ser honesto, então? Tudo bem. Nunca quisemos ser uma banda dos anos 90, não ouvíamos música nessa altura e nem é hoje a nossa preferência. Tenho para mim que é tudo fruto do acaso.” Ou seja, tão simples como criar uma banda a partir de um encontro no deserto.
