Orfeu: Uma editora renascida e os seus encantos

Uma editora nasce a meio do século xx, faz história entre poetas, compositores e intérpretes, marca o percurso da música popular portuguesa e depois entra em hibernação. O seu regresso tem de ser um acontecimento importante, não há volta a dar. Depois vem o nome, Orfeu, e a questão fica explicada. Um retorno com novos discos, reedições e um tributo – isto até ver.

Falámos com Pedro Passos, um dos responsáveis pela recuperação do selo, cujos direitos estavam, e continuam, sob alçada da Movieplay. “Em 2009 comemoraram-se os 80 anos do nascimento de Zeca Afonso. Na Movieplay quisemos fazer uma compilação de tributo, mas, em cima da hora, tudo ficou complicado.” Nada a temer. Espera–se um par de anos e faz-se a coisa com brio e classe, diz-nos Pedro: “Com tempo, percebemos que faria sentido recuperar a Orfeu para uma edição destas, com esta responsabilidade.” Em causa estavam as canções de José Afonso, que teve o carimbo da Orfeu em grande parte da obra que editou entre 1968 e o princípio da década de 80.

Desta homenagem em forma de disco até aos desenvolvimentos seguintes foi esforço curto. “Não fazia sentido recuperar a Orfeu e editar só um disco”, assume Pedro Passos, enquanto recorda que os princípios da renascida editora são todos e não são nenhuns. Ou seja: “Estão em causa novas edições, com nomes da música portuguesa actual, projectos de qualidade e que não têm espaço nas multinacionais. Mas também é inevitável falar num processo de reedições que vai continuar”. Afinal, recorda–nos Pedro, estamos perante um catálogo de “enormes possibilidades”, com coisas “notáveis” que se ficaram pelo vinil e ainda não viram a luz da era digital e outras que permanecem inéditas.

A Orfeu nasceu pela mão de Arnaldo Trindade, empresário do Porto, perito do ramo dos electrodomésticos, apaixonado pela coisas da música. A partir dos escritórios da Rua de Santa Catarina, houve poetas que registaram em disco a sua obra, antes de outros tantos músicos conquistarem popularidade pelo mesmo meio. De um lado, José Régio, Sophia de Mello Breyner, Miguel Torga, Eugénio de Andrade ou Aquilino Ribeiro. Do outro, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino, Sérgio Godinho, Fausto, o Quinteto Académico ou Júlio Pereira.

Em 2011, e além do tributo “REintervenção”, o regresso (ver coluna ao lado) faz-se com reedições “que fazem todo o sentido, entre as celebrações de Abril e Maio e como companhia da actualidade”, e com um novo disco de JP Simões e Afonso Pais, “Onde Mora o Mundo”. Quase pronto está também um novo álbum de Pedro Esteves, a editar em breve.

publicado no ‘i’ a 18 de Abril
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