Desculpe se o acordei…
Não, não me acordou, estava a trabalhar aqui numa coisa. Na verdade, acordo às seis da manhã.
Um pouco cedo para um músico rock…
Sim, mas tenho família e trabalho para fazer. Já estou habituado a esta rotina.
E o que faz normalmente a esta hora?
Gosto de compor e escrever o que posso de manhã cedo. E é uma boa altura para ver o email. Só tocar guitarra é que não é possível, infelizmente. Sabe que nem toda a gente gosta de ouvir uma guitarra bem alto, algumas pessoas ficam incomodadas.
Os Swans são aguardados com alguma ansiedade por uma legião de fãs devotos aqui em Portugal. O vosso público é habitualmente efusivo? Será por essas “guitarras bem alto”?
Não faço ideia nenhuma sobre os porquês. Os nossos concertos são uma experiência, na verdade. Têm mais de duas horas, a música é uma longa viagem, que vai devagar, sem pressas. Tem muito de êxtase, de contentamento, de espiritual. Exige compromisso por parte da audiência e da nossa parte, claro. E tudo isso é muito bom, ainda que pareça complexo e elaborado de mais para um concerto rock. É um pouco diferente do que fazíamos nos anos 80 e ainda nos 90, mas continua a ser qualquer coisa de especial.
Diferente como? O que acontecia nessa altura que agora não se repete?
Está tudo na idade. Quando a juventude ainda nos abençoa é óbvio que o que acontece nesses momentos nunca mais se repete. Desafio qualquer um a provar o contrário.
E agora, o que podemos esperar de um concerto dos Swans?
O alvo é basicamente o mesmo mas a forma de lá chegar é que se alterou. Esta versão dos Swans usa técnicas e vícios dos Swans antigos mas também dos Angels of Light. É um trabalho que envolve uma vida inteira e não uma vontade de fazer a revolução quando ainda somos novos. Ainda é uma experiência urgente e poderosa, mas com caminhos distintos.
Se tudo é assim tão diferente, porquê investir no regresso dos Swans?
Estava com os Angels of Light há 13 anos e, quando chegou a altura de fazer um novo disco, não estava nada entusiasmado com a ideia. Estive à procura de uma forma de dar a volta à questão mas a melhor que encontrei foi pegar nas canções que já tinha, escrever mais umas quantas e gravar tudo, mas enquanto Swans. Seria diferente do antigo mas apenas o facto de usar o nome e poder usar um som mais poderoso… isso tornou-se excitante e deu-me mais alento. E ao que parece ao público também, nunca tive resposta nos concertos como tenho agora.
Ainda que as gerações em frente ao palco sejam relativamente mais novas.
Mesmo assim. A reacção tem sido incrível. Parece que estamos todos no mesmo ringue, que é um combate de boxe e estamos todos no meio das mesmas cordas. Não é um concerto de rock habitual.
Quando estiver em Portugal é melhor estar preparado para uma invasão de palco ou algo parecido.
Isso não vai acontecer, ninguém sobe ao meu palco. Quem o fizer vai arrepender–se, e muito. Isto não é uma banda rock parva, não é punk rock nem nenhuma merda como essa. Não gosto desses clichés de stage diving e etc. Para isso mais vale estarmos a comer um hambúrguer do McDonald”s. E hoje isso até seria mais fácil de acontecer, temos audiências maiores do que alguma vez tivemos.
Porque será?
Porque estivemos ausentes cerca de 13 anos. E, no entretanto, muitas pessoas conheceram a nossa música através da internet. Sobretudo gente nova. Porque tenho uma editora, mantive sempre a música disponível nas lojas. Continuou a vender e a ser distribuída. Com os Angels of Light consegui também manter-me relativamente na cena. Fiquei surpreendido quando percebi o interesse que rodeava o nosso regresso.
Isto até fazerem um novo álbum, essa vai ser uma outra etapa, talvez mais complicada.
Sim, definitivamente. Estamos a trabalhar num novo álbum, parece-me que vai ser coisa boa, mas é melhor não avançar muito para não criar expectativas.
Vai ser difícil. Sabe que muitos músicos o têm como modelo. As expectativas fazem parte do ofício.
Sei lidar com isso. Acho que sou um pouco insensível a quase tudo, tirando a música e a minha família.
Tem fama de ser rude e pouco tolerante com as pessoas com quem trabalha. São boatos ou é a verdade?
Infelizmente, posso ter um pouco de ditador, por vezes. Mas os meus músicos são incríveis, além de serem meus amigos. O problema é que acontece estar mais excitado que o normal, absorvido pelo momento. E em vez de ser educado e gentil, grito. Não estou para tretas e vou directo ao assunto. Mas é algo que tenho de trabalhar, caso contrário não sei onde isto vai parar. Gosto muito dos meus amigos. E às vezes em palco, quando algo não vai bem, desato aos gritos. Mas também sou capaz de elogios quando tudo vai bem. Não é como se estivéssemos em palco a repetir o que está no disco e, por isso, estamos sempre à beira do falhanço. Essa vertigem deixa-me louco.
De qualquer maneira, nestas coisas do rock é bom que alguém tenha o comando da situação.
O meu pai era um homem de negócios e era muito bom a pôr as pessoas a trabalhar para ele. E as pessoas gostavam muito dele. Não é uma capacidade que tenha, mas talvez um dia.
Voltar à estrada depois de anos bem mais calmos pode não ser uma boa ajuda.
Sim, mas tenho a certeza que foi para isto que vim à terra. Estou agora a perceber. É nestes momentos que estou realmente feliz. É o mais perto que consigo chegar de uma religião.
