No mundos das duplas fora-da-lei há exemplos de genialidade, de como basta o primeiro e o mais simples dos números nascidos no plural para fazer a festa. Há o blues-punk-rock dos Black Keys, coisa bem estudada em estúdio, apesar das arestas por limar. São dois homens mas com preocupações de boa educação, sem ofender e com espírito amigável. Havia os White Stripes, claro, que tinham a diversão como objectivo maior – os amantes desavindos de Detroit com os nervos cheios de distorção e cansados de brincar às bandas na garagem. E depois existem os The Kills, que jogam com caixas de ritmo (heresia) e fazem canções sobre sexo, nada mais. A grande diferença face aos seus contemporâneos de vontades semelhantes: as músicas dos The Kills são lânguidas, serpenteiam quem as escuta, procuram envolvência, mais do que reacção física, até quando ritmo é o factor mais importante. Com o novo “Blood Pressures” voltam a fazê-lo mas descobrindo, no meio deste suor elegante, fórmulas cativantes de serem menos abrasivos sem desapontar expectativas.
Os The Kills têm conseguido fazer acordados o que muitos guardam apenas como sonho das coisas rock: juntar vontades americanas e britânicas, duas garagens, uma com mais cabedal, outra com sentido bem treinado das exigências de uma canção. E Alisson Mosshart e Jamie Hince assinam, em “Blood Pressures”, não a melhor (coisa difícil e nada importante, neste caso) mas uma das mais óbvias consolidações desse entendimento. “Keep on Your Mean Side” (2003) e “No Wow” (2005) foram o mau feitio transformado em canções de garras afiadas mas de um conforto pertubador. “Midnight Boom” (2008) afinou tudo o que estava por afinar e convenceu os últimos resistentes. Agora, “Blood Pressures” suaviza as frequências e torna toda as fronteiras ténues. As canções são solitárias mas vestem todas as mesmas medidas. São doses certas de mau comportamento; de impulsos controlados, mas pouco; de gente que queremos convidar para jantar mas com medo. Ou de como é possível existirem ícones rock preocupados apenas com o essencial.
