R.E.M., ‘Collapse Into Now’: os miúdos estão bem

No dia em que um disco novo dos R.E.M. chega às lojas (neste caso é segunda-feira) há sempre uma dose generosa de portadores de cartões de débito que esquece as maravilhas/maldições da internet e sai de um centro comercial a caminho do estacionamento enquanto tira o plástico que envolve o disco, pensado de si para si como ser atento às coisas da música, aos acontecimentos de natureza global e, por isso, de ego inflamado. E tudo isto sem nunca ouvir nenhuma das canções em causa. Confiança, é o que é, mesmo que, ao fim de uma semana, o tal disco fique irremediavelmente arquivado no fundo do porta-luvas. A boa notícia: este é o regresso dos R.E.M. que esperávamos desde New Adventures in Hi-fi (1996). Collapse Into Now vai ter direito a sincronização com iPod, uma cópia em vinil sempre pronta a rodar e aprendizes de guitarra a aproveitar as lições destes refrães em formato rebuçado. Um júbilo.

Desde a saída de Bill Berry, o baterista de tempo nervoso e vontades rítmicas eternamente adolescentes, que os R.E.M. pareciam correr atrás do prejuízo (aquilo que Michael Stipe em tempos chamou de “um cão com três pernas”). Isto em 1997 e a antecipar álbuns como Up, Reveal ou Around the Sun, destinados a pertencer ao fim da lista quando for hora de alinhar todos os registos da banda de acordo com as preferências gerais da humanidade. A graça da reconciliação com tempos de vontade alternativa da década de 80 e com a escrita de canções perfeitas do início dos anos 90 surgiu em 2008, quando Accelerate voltou a dizer que distorção era coisa boa.

E Collapse Into Now? Vai de Murmur a Automatic for the People com gozo fácil em 12 temas eficazes. Canções punk technicolor com menos de dois minutos (That Someone is You) e odes acústicas emocionais sobre os pesadelos americanos (Oh My Heart e o Katrina). Com Patti Smith e Eddie Vedder, guitarras, bandolins e vozes em harmonia. Tudo certo, na medida certa. Eles lembraram-se e a nós parece-nos muito bem.

publicado no ‘i’ a 5 de Março
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