PJ Harvey, ‘Let England Shake’: Longa vida à rainha Polly Jean

Onde está a PJ Harvey que tinha o desejo como tema de estimação, que escrevia canções apenas porque o som pode ser sinónimo de agressividade “e isso é bom”, para quem as guitarras vagabundas eram tão importantes como mini-saias com vontade própria e lábios em chamas? Ninguém sabe. Ainda bem. Viva PJ Harvey, que depois de “White Chalk” (2007), onde ameaçou nunca mais ser a mesma, é, de facto, outra. Investigou durante dois anos as histórias da primeira guerra mundial e de gente que a Inglaterra fez sangrar e escreveu canções paras os seus contos cantados. Este disco, sobre batalhas e confrontos, escava trincheiras. É pretensioso em todos os seus recantos e tem toda a legitimidade para o ser.

Polly Jean, nascida no interior inglês, regressou à sua Dorset natal para gravar “Let England Shake” na companhia do seu habitual colaborador, John Parish, e de pouco mais. É uma simplicidade que magoa porque obriga-nos a ouvir tudo: a voz que se esforça em registos pouco habituais para esta filha bastarda do punk – altos e a pedir misericórdia; uma reverberação permanente, que era a mesma que PJ via lá fora, Avalon (a fantasia britânica é, afinal, melancolia e morte); as guitarras que vão mais devagar que noutros discos mas que cortam bem mais fundo, mais nítidas no desleixo com que são tocadas; a bateria que nunca comanda, apenas segue o pelotão enorme que é PJ Harvey e a sua vontade em não mais ser a anti-heroína à beira de cair na desgraça urbana.

Coros de casa assombrada, xilofones, samples em quase todas as canções, a sua estimada “autoharp”, marchas militares e um piscar de olhos ao folclore britânico. Tudo em tão curtos 40 minutos, perfeitos, que se escutam num repeat fantasmagórico. Um disco sobre a verde Inglaterra e a sangrenta Inglaterra, com orgulho na primeira e uma opinião duvidosa sobre a segunda. Quase sempre a evocar erros e fraquezas mas, ainda assim, a declarar-se irremediavelmente apaixonado.

publicado no ‘i’ a 12 de Fevereiro
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