Hercules & Love Affair: Revolta na pista de dança

@Diana Policarpo

Andrew Butler cumpriu um dos seus objectivos em 2008, quando editou o primeiro disco como Hercules & Love Affair: ficou famoso. “Hoje posso falhar um avião, alterar todos os planos do meu manager e os jornalistas, ainda assim, esperam um dia para me entrevistarem”, diz-nos, claro, 24 horas depois do inicialmente combinado. Mas a mesma bênção que recebeu há quase três anos tornou-se coisa maldita na hora de assinar um segundo álbum. Butler lê as críticas que lhe dedicam e googla o nome do seu projecto. Preocupa-se com o que dele pensam e confessa: “Senti-me pressionado a fazer um ”Blind” nº2″. Não o fez, preocupando-se com novas (antigas) inspirações. Agora aguarda, com nervoso miudinho, a recepção a “Blue Songs”, o novo álbum, editado esta semana.

“Isto é muito difícil. Quando saiu o primeiro disco, toda a gente escreveu coisas muito boas, só me lembro de uma crítica menos positiva.” Andrew Butler faz das entrevistas um divã. Não esconde o que o arrelia e parece aproveitar todos os momentos para convencer quem o escuta: “É um bom disco, é mesmo.” A sua preocupação é legítima. Em 2008 editou um dos melhores conjuntos de canções dançáveis de que há memória nos anos mais recentes, feito difícil de igualar; e fê-lo com a colaboração de Antony Hegarty (Antony & The Johnsons), que não participa em “Blue Songs”. Porque repetir seria tanto um erro como proeza inalcançável, Andrew Butler encostou para revisão. Recrutou novos colaboradores (Patrick Pulsinger, Shaun Wright e até Kele Okereke, dos Bloc Party, constam da lista) e reorientou a sua vontade estilística: “Sinto-me mais classic house e deep house, talvez porque foi isso que me influenciou quando comecei. Estou mais Ultramarine, Sinead O”Connor e Brian Eno. Por estes dias sou muito menos discos da Prelude, menos Donna Summer. Pode não ser o que os fãs do primeiro álbum estão à espera mas é aquilo que quero. Desenrasquem-se.”

Dito assim, pode até parecer que Hercules & Love Affair já não é nome de gente que só sabe fazer música que não sabe viver de dia, que pede contacto e amizades novas todas as noites. Nunca esquecer que isto é gente formada em Nova Iorque, nascida para as canções e seus familiares directos de acordo com as exigências da vida malvada. Há aqui disco (menos) house (mais) e uma enorme viagem ao que fez história nas danças que tiveram protagonismo entre o final da décade de 80 e o inícios dos anos 90 (isso, século passado). Mas Andrew Butler tem medo dos rótulos. Pensa em si como habitante de uma prateleira de discoteca e sabe que a história é escrita por fenómenos como a Wikipedia e as bases de dados virtuais, sem dono e geridas por tags e outras palavras igualmente cativantes. Frases como “não quero ser só um fabricante de beats ou produtor para a pista de dança” funcionam como apelos de legitimidade, desculpas para Butler fazer de “Blue Songs” um compêndio das suas preferências musicadas, mais do que um disco a apontar para as listas de final de ano. Daí a explicação do compositor-DJ-produtor-frontman: “É justo dizerem que Hercules & Love Affair é música de dança mas é mais correcto usar expressões como música rítmica.” E a explicação logo de seguida: “A intenção é a de inspirar as pessoas a dançar. Não quero limitar as coisas”, que é como quem diz “danças”.

Andrew Butler trata a sua obra com as manias de um puto mimado, que não empresta nem facilita, que bate o pé e choraminga. Mas acredita que é tudo resultado de crescimento artístico: “Tudo isto que agora está em disco é algo que planeava, é o que procuro enquanto adulto. Tenho para mim que neste momento sou adulto.”

Publicado no ‘i’ a 1 de Fevereiro
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