Porque temos em “Blue Songs” um dos discos mais esperados do ano? Porque em 2008, os Hercules and Love Affair assinaram um brilhante e raro conjunto de canções de genética electrónica. Uma aditiva recuperação dos princípios house/disco mas com o foco apontado para um alvo bem mais sedutor: a minúcia na composição melódica das estruturas verso-refrão, seguindo as exigências da escrita pop (ao estilo “ouvir, gostar, ouvir mais, gostar sempre, onde vai isto parar”). Dance music para ser cantada e celebrada, muito mais do que simplesmente bailada de copo na mão e olhos no balcão. Chegados a “Blue Songs”, o inevitável é querer mais do mesmo. Não uma repetição da obra feita mas o tal sentido de desafio e rendição incondicional que o álbum de estreia (homónimo) provocou. Resultado, e para sintetizar: as novas canções não satisfazem este nosso capricho.
O segundo álbum, depois de tanto sucesso na estreia, nunca seria coisa fácil. E assinar algo como “Blind nº2” sem a colaboração da outra metade criativa que em 2008 co-escreveu o hit e boa parte das restantes canções (Antony Hegarty) é – como dizê-lo de outra maneira – impossível. “Blue Songs” (que conta, entre os novos colaboradores, com o produtor Patrick Pulsinger, o fã feito músico Shaun Wright e até Kele Okereke, dos Bloc Party), arranca decidido: com as oitavas perfeitas de um disco vitaminado (“Painted Eyes”) e o teletransporte até à Chicago da transição anos 80/90 em “My House”. Mas é sempre mais referencial que surpreendente, muito mais homenagem que criação destemida. Há “Boy Blue” e “Blue Song”, canções domesticadas e de ambientes mais pastorais que urbanos, a confirmar que Brian Eno e Sinead O’Connor foram bons amigos do compositor e em tudo líder Andrew Butler. Mas o domínio é o da celebração de referências musicais juvenis, da colecção de discos transformada em documento de produção exemplar. Há espaço reservado para divas vestidas de cabedal em delírios vocais mas menos do que o esperado para festins espontâneos, adaptáveis a qualquer cenário.

Boa critica.
Reproduz muito bem aquilo que eu acho do disco.
Um abraço