Jon Spencer Blues Explosion: Para um motim bastam estes três

Arriscámos uma pergunta que, dizem os entendidos e os manuais, não se faz: frente a Jon Spencer, músico de currículo seguro, a ditar regras há mais de duas décadas, pedimos-lhe para escolher o melhor disco da Blues Explosion, banda que agora reedita parte substancial da sua obra. “Talvez o “Now I Got Worry”. Silêncio no telefonema. Não recebemos a habitual resposta “os nossos álbuns funcionam como um todo, um corpo coeso, é difícil comparar, todos representam uma etapa do nosso crescimento”, isto e aquilo. Jon Spencer escolheu e, além dessa cortesia, continua: “Sei que muita gente aponta habitualmente o “Orange” como o nosso melhor álbum. Mas eu prefiro o “Now I Got Worry”.” Reacção número 1 – é preciso escutar a Blues Explosion de novo, reavaliar tudo a partir desta resposta. Reacção 2 – Jon Spencer, o tal que nos anos 90 se lançava como futuro ícone rock”n”roll, mais personagem de ficção on the road que músico de guitarra e osso, olha para a as canções que fez como coisa despreocupada, volátil. É cool demais para se preocupar e isso pode desfazer mitos.

“Sabe [pausa curtíssima para fumo de cigarro], estou habituado a desiludir as pessoas. Não sou uma estrela pop dos 60s e sou mesmo capaz de conversar sobre temas que não os musicais.” Frases ditas aos 45 anos, quando já se reeditam discos – e sinal maior de ponderação e serenidade numa banda não deve haver. Mas para querer misturar, no mesmo grupo, blues, punk, funk, soul e até música latina, a Blues Explosion não surgiu como coisa séria, nascida da ponderação adulta e à mesa, entre conversas de família. Antes, sucedeu a aventuras de menor duração de Jon Spencer – como os Pussy Galore – e ao que o final da década de 80 lhe deu como bênção: “A América era uma enorme poça de gente incógnita a querer ser alternativa. E mesmo havendo coisas pouco interessantes para descobrir, no meio de tantos loucos, tudo funcionava como uma grande comunidade”. Ou como longe do mainstream se descobria a felicidade. Depois vieram os anos 90, a tal década que, por estes dias, fica bem odiar mas que tanto fez pelo que hoje se vai escutando. Jon Spencer chega-se à frente: “Foi uma altura porreira. Entre guitarras e electrónicas, havia espaço para tudo. Os penteados não eram tão importantes como nos 80s e isso deu-nos espaço.”

Entre 1992 e 1998, a Blues Explosion usou uma bateria, duas guitarras e a voz de Jon Spencer (acompanhado por Judah Bauer e Russell Simins). Redefiniram a expressão power-trio, nem Cream nem Nirvana, lá pelo meio mas longe de tudo isso. O suor e a pornografia cantada tornaram-se protagonistas e quando os tais anos 90 terminaram, era ver guitarras a formar bandas, os blues a vestir cabedal e tudo a voltar a ser sujidade de garagem. A revolta pós-Napster, depois do nu-metal e das maravilhas que o mundo Spice-Girls-Britney-Spears operou. E a Blues Explosion continua, sem data nem prazo de validade. Daí arriscarmos palavras como “especial” para catalogar esta reedição. Porque a música em questão nos dá legitimidade para tamanho pretensiosismo – com qualquer um destes discos, salas de estar são transformadas em caves de clubes punk e isso merece ser celebrado – e o foi o próprio Jon Spencer a tratar do assunto: “Voltei a ouvir os discos todos, escolhi o material inédito a incluir e fiquei surpreendido. Esta banda é notável.”

publicado no ‘i’ a 25 de Janeiro
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