Não é surpresa, para quem tenha passado pela demência criativa invejável dos anteriores discos de Dan Bejar, que tudo o que nos é revelado com a assinatura Destroyer merece ser mastigado como se aprende em pequenino: devagar e de forma consistente. Mas mesmo com esse princípio assimilado como dogma, “Kaputt” diz que tudo isso acabou. É o fim do que já tínhamos como certo (o pouco ou quase nada que nos servia de conforto) para saber que, afinal, Bejar não é artista indie-rock. Cansou-se da moda e começou a fazer música para ouvir no seu próprio iPod.
Como os que crescemos a ter vergonha dos nossos gostos musicais enquanto infantes, para depois os querermos recuperar, este canadiano disse que não às exigências que a internet social lhe fez – “mais um nota máxima nas pontuações dos blogues, por favor” – e arrumou-se na sua gaveta de contentamento. O que fez como Destroyer (e com os New Pornographers e os Swan Lake) dá-lhe liberdade para fazer o que quiser e sair ileso. Porque não está no mainstream, claro, mas por vezes é contra as contas das probabilidades que lá se chega mais cedo.
Por isso, enquanto “Kaputt” debita as mais refinadas canções ambiente de uma loja de roupa com classe, o que queremos é beber um whisky como se o Don Draper da moda fosse um herói dos anos 80. Melhor mesmo seria dançar numa noite de semana no Cais do Sodré, sob luzes de mau gosto e companhias anónimas. Destroyer, hoje, é Bowie e Roxy Music e Lou Reed, como sempre foi, mas com electrónicas de corte sóbrio (ainda que num mundo sempre pop) que só descobrimos a sério nos anos 80. É uma colecção de slows para bailes solitários, com espaço para metais em improviso, como um Miles Davis entre o nascimento do cool e as decisões de um cocainómano. E isto na voz de um tipo que canta “I write poetry for myself”: não querendo saber dos outros, fala dos seus desastres pessoais. Mal sabe o próprio que assim nos faz as vontades.
