Japanther: o par de desleixados mais decidido do momento

Assaltaram o carro dos Japanther em Amesterdão. Os rufias levaram-lhes telemóveis (agradecemos terem deixado pelo menos um para que esta curta conversa fosse possível) e rapinaram o que puderam das finanças expostas à vilanagem. O que faz a banda, entre concertos da digressão europeia que hoje os traz a Portugal? Ri-se enquanto lhes perguntamos “e agora?”: “Agora nada. Não queremos saber dessas coisas de telemóveis e tal.” Sim, mas há dinheiro envolvido: “Tudo bem, mas vamos continuar a comer e a beber bem, alimentos saudáveis e sumos.” Sim, este é o duo que parece querer virar o mundo do avesso sempre que está no palco, com bateria, baixo, gravadores, teclados de brincar e o que mais houver à mão. Toda a adrenalina da história do punk numa mão e a serenidade que qualquer habitante de uma urbe nervosa anseia na outra. O fenómeno é possível e revela-se em Lisboa, na ZDB, hoje, a partir das 22h.

O aviso a quem vai, ou o despertar da curiosidade para os indecisos – os Japanther definem-se como um duo de performance: “Sem bullshit, somos uma banda rock, punk-rock, improviso alternativo, o que lhe quiserem chamar”, esclarece Ian Vanek (o menos cabeludo da foto e que, por norma, se ocupa da bateria). “Mas fazemos, com o nosso trabalho, muito mais do que a mais previsível carreira de dar concertos e editar discos”. Pois bem, a saber: os Japanther já colaboraram com um grupo de natação sincronizada, com teatro de fantoches e colectivos de sombras chinesas. Nada disto os vai inscrever na páginas de cultura dos manuais escolares de História. Mas ouvindo a música que os Japanther fazem, admiramo- -nos e queremos saber mais.

Se o tempo for pouco, basta “Rock”n”Roll Ice Cream”, o álbum editado no ano passado, para revelar o óbvio. Os Japanther nasceram do cruzamento entre os Ramones e os Sonic Youth, com a noção clara de que uma canção pop com um par de minutos pode ser desafiante, sonora e verbalmente. Que o ruído é uma definição subjectiva e que quase todas as fórmulas cabem nesta estrutura verso/refrão para ouvidos inquietos. “Já li os rótulos mais variados associados à nossa música: que é coisa de skaters, que são canções feitas por surfistas, que devíamos era fazer thrash metal.” No meio dos discos que os Japanther já editaram há um pouco de tudo isto e o mais curioso é perceber como tudo funciona em conjunto. “E por isso também é natural que a nossa música possa servir de banda sonora para as expressões artísticas menos óbvias”, confirma-nos Ian Vanek. Nunca diríamos neste texto coisas como “tudo isto acontece porque os Japanther nasceram nas ruas, surgiram da cultura urbana que mistura tudo”. Parece coisa sem sal e pouco genuína. Daí as aspas – a frase é do músico entrevistado, limitamo-nos à citação devidamente assinalada.

Os Japanther apresentam no Porto e em Lisboa as canções de “Rock”n”Roll Ice Cream”. Ou assim pensamos antes de ver o duo em palco. A verdade é que, desde 2001, a banda já editou duas dezenas de registos, entre álbuns, EP, CD-R caseiros e singles repartidos com outros grupos. São proletários, sem grandes ambições e com um caso severo de dedicação crónica a uma causa que não tem nada de revolucionário. Ian Vanek: “Não temos muito mais para fazer e, ao mesmo tempo, entre discos e concertos, conseguimos ter a vida perfeita. Os nossos fãs são tão dedicados porque somos verdadeiros working class heroes. Somos como eles, mas fazemos muito mais barulho.” Nada mais simples.

texto publicado na edição de 19 de Janeiro do jornal ‘i’
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Uma resposta a Japanther: o par de desleixados mais decidido do momento

  1. Tive a oportunidade de os ver ao vivo ha umas semanas em NYC no evento memoravel Rock and Roll Circus. Ja conhecia um pouca a dinâmica do grupo e a sonoridade, mas ao vivo foi um outro universo, pena foi que o concerto saiu do controlo da segurança e teve que ser interrompido no final de 3 musicas. Foi um show total, pequeno mas bastante revelador da personalidade deste grupo.

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