The Glockenwise: Rock’n'roll com todos. Bom proveito

Olhando para a foto acima e contando, como manda a tradição, da esquerda para a direita, o segundo sentado à mesa é Nuno Rodrigues, o vocalista dos The Glockenwise. Com 20 anos, barcelense sem remédio (“estou demasiado enraizado para ser qualquer outra coisa”, diz-nos), lembra-se dos tempos de escola secundária e dos que, entre pavilhões e intervalos, lhe davam atenção apenas por acidente: “Chamavam-me loser”, conta a história. Agora, os tais The Glockenwise, fãs das coisas do rock”n”roll – o da garagem – que juram que o punk e seus derivados nasceram a norte, preparam um concerto na Casa da Música, no Porto (sábado), e a edição de um primeiro álbum, “Building Waves” (segunda-feira). O júbilo de Nuno Rodrigues, no entanto, não tem nada que ver com vingança social: “A verdade é que vão continuar a chamar-me loser.”

Em verdade se diga, Barcelos tem uma taxa de criatividade roqueira generosa – a fonte oficial que entrevistámos fala em “mais de 60 projectos numa terra pequena”, ou de quando os números impressionam. Mas as notícias sobre a potencial Seattle minhota são manifestamente exageradas. É Nuno Rodrigues quem o diz com convicção semi-religiosa: “Acho piada ao que se tem escrito sobre Barcelos mas a mim parece-me a lenda do Galo no século XXI. Quem vem a Barcelos não encontra concertos nem posters nem bandas a tocar na rua. Nem sequer há sítios para tocar. Há muita gente com vontade e talento, com alguns nomes que vão conquistando espaço, como os Green Machine ou os Black Bombaim. Mas a verdade? Para os tais da escola secundária, estas bandas não existem.”

Segundo toque Ficam os “antigos-colegas-nunca-amigos” sem ouvir “Building Waves” mas, em troca, vai-se conquistando espaço nas vontades de blogues e redes sociais, com canções e fotos cheias de ganga e camisas da (quase) moda. Vai daí, o saldo é claramente positivo para esta banda que brinca ao rock”n”roll há uns anos. “Não aparecemos ontem, julgo que isso faz alguma diferença quando há tantas bandas a tentar a sorte”. Para ser mais exacto, Nuno partilha todo o orgulho que guarda por ter começado “há algum tempo, pelo menos desde os meus 15 anos”. O suficiente para enviar gravações de mau gosto para festivais e concursos sortidos; para ter outras bandas, tal como os restantes elementos dos The Glockenwise, com desventuras através dos mais eclécticos géneros, “do doom aos blues”, e outras expressões afins; e para construir currículo invejável com um roteiro através de locais de ensaio. “Usámos de tudo, de casas de banho a salas de estar”, diz um resignado Nuno Rodrigues, com poucas queixas excepto “não há um espaço para as bandas tocarem em Barcelos, apenas o auditório da biblioteca municipal. Mas nem sempre é bom tocar para uma plateia sentada, pois não?”.

Ouvimos mais uma vez as canções de “Building Waves” antes de responder. Pouco mais de meia-hora e isso é bom. Nove temas escritos e gravados numa sala com posters de Paulo Furtado e Jon Spencer (não o sabemos mas for verdade é a escolha certa), a escutar antigos como os os Stooges ou novos como os Strange Boys. Ou, para fazer a coisa simples, guitarra-baixo-bateria-voz-quatro-acordes-verso-refrão. Tudo distorcido, tudo com as cordas vocais de quem ainda pode tentar a voz que, na verdade, não tem. Ficam-lhes bem o esforço, para quem canta as histórias da rua, as desventuras de beijos e o que se seguiu ou a boleia para escola. Se isso lhes dá o título de banda promessa? “Não, isso já pede a consagração, é um título rasca.”

este texto foi originalmente publicado na edição de 13 de Janeiro do jornal ‘i’
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